Às sete e trinta da manhã, tento vestir-me em menos de um minuto e ainda preciso tomar meu cafezinho,senão saio zumbizando por ai,e pelo olhar cristão dos que encontram comigo nas belíssimas manhãs de nossa cidade,não parece ser algo muito agradável - ou ao menos a melhor imagem que alguém espera ver logo no início do dia.Como no dia anterior fui vítima de um toró inesperado,minha calça – a única que tenho – ainda está molhada.No caso de meu tênis,a situação é mais grave.Encharcado de tal forma,que seria conveniente usá-lo como esponja para lavar os pratos,e por que não,como bucha para tirar a craca das costas e pescoço.Sem opções,e ainda atrasadíssimo,resolvo tirar do baú de estorvos - uma gaveta que fora excluída de sua família,o armário, que fica jogada no chão ( comprei um armário com 6 gavetas mais o baú de estorvos,que veio por acidente,obra de algum funcionário zumbi que não tomou café ao acordar), uma calça que ganhei da minha finada tia-avó e um tênis que ganhei do meu futuro-finado primo.Sempre tive pés que,em um momento de necessidade,me serviriam para garantir o fantástico emprego de palhaço.Contudo,os tênis de meu futuro-finado primo,eram alguns números menores que o meu,ficando assim,apertadíssimos.As calças que havia ganho de minha finada tia-avó,eram maiores que minhas pernas,porém,eram mais justas ao meu corpo,dando um ar bem...bem...bem...exótico a mim.Ao vestir meu novo modelito,tomo as pressas o sagrado cafezinho e corro para o ponto de ônibus.Ah,não pense que sai de casa vestido somente de calças e tênis,mas também usando um velho conhecido,que ainda não é meu íntimo: O uniforme da empresa.Ao sair de casa, para calar as más bocas da vizinhança, que insistem em dizer que sou um vagabundo, uso o uniforme.Antes de pegar o ônibus, visto outra camiseta e ao chegar ao trabalho,coloco novamente o uniforme. Não gosto que as pessoas me vejam com uniforme feio de uma empresa medíocre.Tenho vergonha dela.
Verde,com as mangas amarelas e bordado com detalhes azuis ,com o slogan e o logotipo da empresa em branco,esse uniforme é justo ao corpo,que me dá um aspecto de garanhão,ressaltando os poucos músculos do meu peitoral.Um colega de trabalho me disse uma vez: “ As mulheres gostam,ele me dá um ar másculo”,daí eu elaborei o comentário citado acima.Detesto usar esse uniforme justamente por isso,não gosto de parecer um pegador,de barangas.Já com a camiseta,esse aspecto eleva minha auto-estima,apesar de ter alguns traumas a respeito desse tipo de roupa,mas não interessa citá-los aqui,afinal,estou com pressa.
As calças,por serem apertadas demasiadamente,expremem meu saco,dando uma dor infernal e ainda por cima,fazendo meu andar ser meio recolhido e rebolado,como se atraísse machos para o acasalamento.Não entendo muito de biologia,mas assisto TV.
Chego pontualmente as oito e quinze ao trabalho. Comprimento alguns colegas ,como papai me ensinou, ser sempre sorridente e legal com todos, corro ao banheiro para arrumar a calça e tirá-la do atrito com meu saco.
Meu patrão,ao me ver usando uma camisa,vermelha com letras azuis e brancas,escrito “ 88 highway – Boston Usa “ - a camiseta que estava usando no dia -,algo assim,não entendo muito bem de inglês ,sem o uniforme – geralmente o coloco só nos momentos em que sei que o cão bravo vai descer até aqui para latir,rosnar e mijar no poste – me dá um grande esporro,joga-me na cara que sou mau funcionário,não tenho amor à firma,não cumpro as metas estabelecidas e sou metido a gaiato.Incomodado e ainda sem entender os motivos desse linchamento,percebo que estou com a mão direita dentro das calças,na porta do banheiro,ajustando meu saco e a minha frente,estou pisando nos sapatos brilhantes dele , pés enormes quase explodindo o ridículo tênis,quase encoberto pela calça justa e longa.Bem provável que naquele momento eu fazia caretas,de dor.Tento me explicar,mas o Cão ainda late sem parar,e quando termina,pede que eu me retire do local de trabalho e me dirija até o escritório,para resolver as burocracias trabalhistas.Desanimado,saio andando a esmo pela rua,quando deparo com um lugar bem comum por essas regiões, chamado “Bar-lanchonete-restaurante do Carlinhos,que como todos os lugares comuns como esse,não tem nada de restaurante ou lanchonete,é bar mesmo e o que rola é só a cachaça .Entro tropeçando na barra da calça,mas não chego a cair.Usando minha camiseta do uniforme - havia a colocado inutilmente como uma última tentativa de salvar meu amado emprego.Com a correria,não havia vestido minha “ 88 highway – Boston Usa “,por isso a segurava nas mãos .Dentro do Bar-lanchonete-restaurante,haviam outros homens com uniformes parecidos com a da minha ex-empresa,e que como eu,não pareciam se dar muito bem com eles ( os patrões e os uniformes).Todos sentados,tomando a cachaça.Alguns sorrindo,outros pensativos.Mas todos com uniformes.
Germano Martins F.C. Neto