Ad-Surdo

Paira no céu um arco-íris concêntrico,
E ao centro,
Banhado de luz e esquecido sob o relento
Há uma nova Lua,
Unindo o espetáculo do absurdo.

A Lua chove e o chão reflete,
Enquanto o calor do corpo faz o papel do vento,
Ao aquecer o sereno e condensá-lo,
Enchendo as quatro cavidades do recinto.

Sabe gurizada, vou contar uma história. Eu tava indo buscar minha aposentadoria num banco no centro da cidade, tava indo de ônibus, diga-se de passagem, apesar que eu não pago passagem, mas o trocadilho não poderia ser desperdiçado. Tava na porta, pronto pra descer, quando ouço duas cidadãs trabalhadoras conversando enquanto olhavam no espelho retrovisor na saída do ônibus. Diziam algo assim, vou tentar reproduzir pra vocês:
- Menina do céu, que horror que tá meu cabelo! - E a outra, por reflexo, ou melhor, reflexo do reflexo da refletida, disse:
- Ah, o meu também, olha só! Sabe, eu trabalho como doméstica, uma governanta de casa melhor dizendo, sabe? Então, me fazem usar o dia todo essas borboletinhas no cabelo pra manter ele preso...
- Ah, mas daí isso estraga o cabelo, né?
- Sim, mas eu já tô tão acostumada a usar que quando não uso sinto um vazio... Agora, detesto o cabelo sair com o cabelo solto. Adoro ele preso, sabe?
O ônibus parou e elas desceram conversando. Fiquei pensando: a mulher prefere ser a profissão do que ela? Ou ela é a profissão? O papel grudou e agora não descola. Posso estar errado, mas isso pra mim é errado. Mas por outro lado não sei se ela que escolheu isso ou escolheram pra ela. Coisas da vida. Veja eu, escolhi ser o que sou, mas o que sou é o que sobrou. Com o que sobrou, fiz o que sou o máximo que pude, e fiz algo bão, viu? Fiz muitas coisas, e estou com a consciência limpa, posso morrer em paz. Mas e essa mulher? E tantas outras como ela, de outras profissões e outros sexos? E aqueles que nem fazem, mas falam que fizeram? Esses eu não entendo muito, mas entendo menos o porquê de serem os que ficam famosos. É, vivendo, concluí que as pessoas gostam mais de mostrar o pau do que matar a cobra. Eu mato é na mão! Eu mesmo, já matei muita cobra, mas não saí mostrando, nem tem necessidade de mostrar. Acho que fez a diferença, mas quem leva o mérito é quem mostrou o pau. Meu nome é Zé, só Zé, mas não diga que não sou ninguém.
O céu está cinza,
Mas não é porque meu coração está triste,
Simplesmente, é porque irá chover.

Nossa desgraça não é arte,
Não pinte,não fotografe, não poetize,
Apenas cale a boca e olhe pro céu
E espere a chuva...

Não dê uma de covarde abrindo seu guarda-chuva,
Molhe a cara, deixe a água escorrer pelo corpo,
Você não é feito de açúcar, e sim de poeira
E esse é um fato que você não pode negar.

Deixe seu corpo escorrer pelas ruas,
Atingir os bueiros e depois o pequeno córrego,
Siga o fluxo, pois um dia, inevitavelmente,
Encontraremos-nos no mar.

Uma pequena nota

Falta um pedaço em mim:
Estou resumido a ser só,
Só Gen.

Orquestra : roque star

Orquestra : roque star

É o movimento:
- É português,
É inglês,
É clássico,
É rock
É o espaço que muda,
É tudo, é nada...

É nada, dana, anda,
É vida, viver,
É ver, eu vi, eu vejo,
É jovem, é hoje, é amanha,
É o movimento, é o ciclo,
Equilíbrio, monociclo,
É sem sentido, é sentido,
É o coração que vive,
- Que vi, vê?

É português,
É inglês,
É clássico,
É rock
É a mesma coisa,
É o ciclo...



G.N. agora/a pouco/2010

A fuga, o encontro e o retorno

Sentado desajustadamente em minha cadeira, com os pés apoiados sobre uma almofada que por sua vez está apoiada à poltrona, fixo meus olhos no monitor de 17’ que exibe um arquivo em branco no programa Microsoft Office Word 2007. Coço com as unhas a derme sobre o nariz bem a altura do osso nasal enquanto reflito sobre o que escrever e principalmente, o porquê escrever. Decido escrever um conto, e o porque de escrever um conto é, decididamente, pelo seu baixo nível de complexidade, o que me dá margem para escrever sobre qualquer asneira e, após feita a “ obra”, posso procurar lacunas das quais não conseguirei explicar e enfatizá-las-ei, tornando-as palavras-chave para a produção e reflexão de novos pensamentos e idéias. Mas ainda assim, não pensei a respeito do porquê de escrever.

Como uma auto-analise psicológica, tomo como imagem o personagem “ Hannibal Lecter”, ou simplesmente “ Dr. Lecter”, do escritor norte-americano Thomas Harris, que teve seus livros adaptados para o cinema, dos quais tive contato primeiramente, e por isso, tomo a imagem de Anthony Hopkins interpretando o célebre psiquiatra psicopata, que agora está incorporado à imagem que criei para representar meu psiquiatra interno. Ele diz para mim, que agora estou sentado em um divã imaginário:
- Porque você escreve?
Antes mesmo de responder, Dr. Lecter prossegue:
- Busca expressar algo? O que seria? Ou será que deseja meramente demonstrar seu intelecto às pessoas? Vaidade ou orgulho? Ambos? Seja modesto e responda que escreve para se desenvolver, que ainda é fraco, que quer crescer etc.
Não consigo responder as questões, oscilo entre uma resposta e outra, uma opção é mais viável que a outra, sou um crápula, um monstro? Sou inocente e bom? Quero mesmo mudar o mundo? Quero fama, dinheiro? Dúvidas, vidudas e dasvidu. São tantas realidades, ilusões, mentiras. Cerro as pálpebras e volto meus olhos para a única resposta que me vem a mente, que é a vil ligação de realidade, ilusão e mentira. Ilusão é uma mentira bem verdadeira, uma verdade não desmentida, é verdadeiramente acreditar na mentira. Crer, essa é palavra que pode explicar o porquê de escrever. Abro os olhos em direção ao Dr. Lecter e o vejo com sua focinheira: está ficando quente.

Incrédulo, mal pisco os meus olhos e me vejo por detrás de um vidro, preso dentro de uma cela isolada. Ouço a voz grossa de um homem murmurando que nessa cela está preso um canibal. Sei que o psiquiatra canibal precisa ficar preso, isolado, para não fazer perguntas e não levantar duvida aos que estão mais fracos que ele e não comer os que estão mais fortes. É um devorador de personalidades interessantes ou simplesmente de desonestos e os faz por vingança ou por prazer, talvez para salvar a própria pele. Não sou especial e tenho consciência de que todos nós temos um Dr. Lecter em nosso manicômio consciente. A vida é um hospício e sem a autoconsciência, estamos sujeitos a diagnósticos errôneos de médicos incompetentes, quiçá, negligentes.

Sentado agora em minha confortável poltrona com o teclado sobre minhas pernas, corrijo os herros hortográficos de meu pequeno texto, rindo dos devaneios e da forma com a qual o escrevi. Percebo que no final coloquei letras demais em certas palavras. É um defeito escrever demais quando é desnecessário. Enxergo uma lacuna da qual poderei fazer alguma analogia. Concluo o texto com a idéia de que escrever é necessário para melhor simbolizar determinadas idéias e desejos, ou seja, descrever mais detalhadamente determinados sentimentos para assim facilitar a compreensão do interlocutor, envolvendo sentimentos como orgulho e vaidade, que fazem parte da natureza humana, da qual faço parte e, negá-las, é a real hipocrisia. Antes de parar de escrever, penso em qual será o título do texto, do qual nomeio de “A Fuga, o encontro e o retorno”, de acordo com a ordem dos parágrafos do texto.

P.S. Na verdade só escrevo porque gosto de escrever.
P.P.S. Embora minha vida escolar inteira fui uma negação em redação.

O turista

O turista

As noites na montanha nunca são iguais. Por experiência, posso afirmar, que dependendo da fase lunar, do vento e da empolgação do meu coração, as noites são diferentes. Do alto, a oeste, posso ver a cidade, toda iluminada, mas por maior que seja o esforço que eu faça, não consigo saber se é uma noite boa ou não entre a murada de motéis. Digo murada, pois na ausência de muros, tomo como referencia os postos de gasolinas para caminhoneiros e os motéis que cercam a cidade. A leste, vejo a escuridão do campo, com pequenos focos de civilização, os “vaga- lumes” campestres, acredito que são as televisões ligadas nas casas dos pequenos fazendeiros e de seus peões. Ao sul e ao norte tenho a mesma visão: escuridão da mata. Escuridão que mata... Resolvi descer da montanha e ir visitar a cidade.

Como já era de noite, não esperava ver crianças ou idosos na rua, mas sim jovens desfrutando sua juventude, da forma deles pelo menos, e adultos em seus happy-hours após uma jornada de trabalho. Parei de frente a um bar e vi os jovens adultos de cabelo arrumado, roupa social, acompanhados de um copo de cerveja e, as vezes, de jovens adultas com suas roupas de jovens executivas. Sua recompensa por um dia de trabalho, de certo. Resolvi entrar no bar para beber algo e fazer amizades, mas quando enfiei a mão no bolso, percebi que havia deixado minha carteira lá na montanha... Passei pela porta de casas noturnas, as pessoas me olharam estranho, acho que sou feio, talvez seja porque estava fedendo, aliás ainda estou, mas elas estavam perfumadas, todas com o mesmo perfume, os homens principalmente, as mulheres com o cheiro doce,não sei se é perfume, acho que era. Vi mendigos dormindo no chão, vi bêbados felizes também dormindo no chão, vi homens felizes nos carros voltando ou indo à festas. Todos felizes. Fiquei contente em ver que a sociedade é tão feliz. Parei na porta de uma pizzaria, estavam fazendo rodízio, fiquei vendo as pessoas contentes comerem, se empaturrarem por alguns reais. Um garçon simpático me trouxe um pedaço de pizza e pediu que eu saísse da porta assim que comesse. “ Vai com Deus”, me disse. Deus ficou na montanha, junto com minha carteira, mas pro azar dele, não ganhou um pedaço de pizza. Preguiçoso...

A alegria não está na montanha. Está no estomago. Pensei, juro, por alguns instantes, em não voltar à montanha. Iria à um cartório assim que o dia amanhecesse e me registraria, botaria um nome qualquer e um sobrenome que me fosse útil e tocaria minha vida. Cansado de andar, sentei no chão, sou simples mesmo como você pode ver, e olhei pro céu, mas não porque eu quis, vou porque a cabeça tombou pra trás, sem querer. Entao, vi luzes. Como que as pessoas conseguiram iluminar o céu? Será o teto da cidade todo trabalhado para melhorar a estética urbana? Eram uns pontinhos separados uns dos outros, lâmpadas quase apagadas, já bem antigas de certo, que estavam quase queimando. Falta de responsabilidade das autoridades locais. Deveriam ter consertado antes, ou manter as lâmpadas sempre bem vivas. Falta de respeito com os visitantes...
Minha barriga ficou vazia e meu senso crítico aguçado. O que antes começou como uma indagação acabou se tornando uma revolta...Fiquei indignado. Não tinha, e ainda não tenho, a menor idéia de como que podem consertar o teto da cidade, mas sei que enquanto não consertarem, não ficaria por ali. "Esperarei até as próximas eleições, é fácil saber quando, basta observar o movimento das luzes da cidade, e então voltarei...espero que o novo representante dos donos da cidade saiba trocar as luzes do teto", pensei. Então, voltei pra montanha. As noites na montanha nunca são iguais.

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