Fulano

Fulano, dono de uma personalidade com tendências contemplativas,vivia para observar. Morava em um pequeno reino,de habitantes grandes. Girafonópolis, a terra de Fulano.Lá, todos eram muito grandes, concluiu um dia Fulano. Todos eram grandes, menos o pobre Fulano, que gostava de observar,fato que Fulano nunca tinha percebido. Fulano observou que o Rei de Girafonópolis era de caráter honesto, preocupando-se sempre com o povo. Não havia polícia, exército ou até mesmo escoteiros. Os girafonopoleses não tinham interesse nisso. Mas Fulano sim.As coisas eram muito paradas,chatas;observou Fulano.Tentava agita-las,e as vezes era recrimidado. Alguns diziam que Fulano era um porco. Outros, nada diziam. Fulano não era nada,não existia. Chegaram até a falar que ele era um Homem,algo mítico. Fulano tinha um amigo,seu único, mas raramente conseguia manter um diálogo com ele. As palavras de Fulano não alcançavam os ouvidos do amigo,mas as palavras do amigo atropelavam Fulano.Na verdade,o amigo nunca ouvira a voz de Fulano. Fulano tentava olhar o amigo nos olhos. Mas não conseguia, seus olhos eram incapazes de focar um rosto ao alto por muito tempo.
Fulano observava a conversa das outras pessoas e concluiu que não era igual.

Certa vez, o Rei de Girafonópolis resolveu construir uma estrada, até o outro lado do mundo. Uma tremenda propaganda publicitária expôs os motivos e benefícios do plano do Rei.Mais que um plano,era um desejo pessoal do Rei.Seu sonho.O sonho era mostrar toda a sua elegância por todos os reinos em que passasse desfilando por sua estrada.Sem muito interesse,o povo apoiou o plano do Rei. Com o apoio do povo, o rei decretou a construção da estrada. No dia marcado para o inicio da construção, o Rei convidou todos os girafonopoleses para a festa de inicio das obras. Nesse instante, Fulano percebeu mais uma característica dos girafonopoleses: eram todos festeiros, tudo era festa e para tudo se fazia festa. Os operários, após encherem a cara, pegaram no batente. E Fulano observava.
Durante dias, os operários trabalharam arduamente, como diziam, mas nenhuma pedra foi colocada na estrada. O Rei, indignado, foi ter com os operários. E Fulano praticava seu esporte favorito,observar.
- Ora senhores!Esta obra não anda não?-Disse o Rei,impaciente.
- Perdão vossa majestade, mas necessitamos de mais homens e máquinas melhores.
- Sei, sei... Então contratarei mais mil homens!Nem que toda a população trabalhe!
Fulano,que já conhecia o motivo do embargo,decidiu ser útil e,saindo do buraco de onde estava metido,gritando,disse:
- Com licença, vossa majestade...
-
- Tenho algo de seu interesse a dizer...
- Sim? Não grite.
- Perdão é que...
- Tá tá tá,diga.Aliás,como é seu nome?
- Fulano,senhor.
-Ó sim.Pois então,diga.
-Bem,acho que sei o motivo de seus operários não conseguirem progredir,ou melhor,começar as obras.
- E o qual seria o motivo?Incopetência?
- Falta de experiência,e principalmente,porque eles não conseguem manejar os instrumentos. Não tem Mãos.
- Mãos?
-Sim, patas que podem segurar coisas, como pinças...
- Incrível.Comprarei mil dessas!Mas...Como e onde compro essas Mãos para eles?
- Não sei como, e nem sei onde vendem...
O rei ao ouvir a resposta de Fulano,fechou a cara e,novamente impaciente,concluiu:
- Hum, obrigado pelas informações, pode ir.Vá.
-... Mas eu tenho Mãos.
-Tem? Que magnífico! Vende-as para mim?
- Não, desculpe. Só tenho duas e preciso delas.
- Certo. Se tiver mais algumas sobrando, comunique-me que eu as compro.
- Acho meio difícil, mas tudo bem. Se eu encontrar alguma, em uma gaveta ou debaixo da cama, mando chamar vossa excelência...
- Vá com Deus meu filho.
- Fique com ele, meu Senhor.

Passaram-se alguns meses, e a obra continuou embargada. Jornais de todos os cantos do mundo, que na época do anúncio da construção da estrada real girafonopolesa, estavam impressionados com a ousadia do Rei, agora o ridicularizavam. Críticas e mais críticas. Mais alguns meses se passaram e a obra permanecia embargada. Agora, não só os jornais estrangeiros o criticavam, mas também os jornais girafonopoleses.A maioria das festas públicas foram cortadas,para cobrir as despezas da obra. As criticas se agravaram.O povo,insatisfeito,exigia uma resposta. A situação tornou-se insuportável para o Rei. Corria o botado de que facções planejavam derrubar o Rei. Enquanto isso, Fulano divertia-se observando, e sua vida era a mesma.
O Rei estava receoso. A população agitou-se. Todos contra o Rei. O rei entrou em pânico.
Em uma noite de insônia, o Rei arquitetou um plano maléfico. Mataria dois gatos com uma tigelada. Junto ao alto conselho de Girafonópolis,formado pelo padeiro;o vigário;o dono do buffet que organizava as festas e pelo próprio Rei,este forjou provas, que incriminavam certo Fulano, de ser o mentor dos golpes, ou o líder da facção terrorista - variava de acordo com o contexto. Em uma manhã, foi à casa de Fulano.Este,feliz ao atender a porta,disse:
- Vossa Majestade!Ó meu Deus! Quanta honra!
-Sim, eu sei. Posso entrar?
-É! Claro, pode sim.
- Ótimo.- Se inclinou para passar pela porta,quase pisando em Fulano.
- A que devo a honra?Aceita café?Leite?Chá?Bem,se o assunto for as minhas Mãos, o Senhor me desculpe,já digo que...
- Acalme-se.É, em parte são suas Mãos. Mas, acho bom você me ouvir atentamente.
-Perdão.
-Sabe que nos comparando com a população de outros reinos, somos poucos. Mas, comparando com uma família, somos muitos. Sim, todos desse reino são minha família. E estou decepcionado com um membro dessa amada família. Você. Estou muito decepcionado com você.
- Por Deus senhor! Só porque não quis vender a vossa Majestade minhas Mãos? Perdão, mil perdões.
- Não é por isso.
- Por o quê então?
- Você, meu caro Fulano, está tentando derrubar-me de meu posto. O posto de chefe da família.
- Não estou entendendo. Derrubar? Como assim?
- Tenho provas concretas, que você é o líder de uma facção terrorista, e deseja assassinar-me para tomar o meu posto.
- Nunca! Juro por Deus! Juro pela minha mãe!Juro por tudo o que é mais sagrado!
- Não jure em vão.Veja,aqui estão as provas. Meus conselheiros e ministros já divulgaram esse documento para a mídia.Eles querem sua cabeça. Não admitem traidores em nossa família.
- Por favor, me escute senhor!Não tenho nada a ver com isso!Nem sei o que é uma facção! Não tenho contatos ou amigos! Não senhor! Acredite! Respeito muito o senhor!
- Sem contatos ou amigos... Sei... É você... Você é o homem certo,de fato.
- Certo?
- Sim, vejo que é uma pessoa certa...É um rapaz esperto.
- Então vossa majestade acredita em mim?
- Sim meu filho.Isso são papéis,meros papéis. Vejo a sinceridade em seus olhos.E é isso o que conta.POr isso vim aqui,e felizmente vejo que estava certo.Bom rapaz...
- Obrigado, obrigado! O senhor é grande!
- Sim, eu sei.
- Obrigado! Obrigado!
- Bem, agora preciso ir. As obras ainda estão embargadas, vou dar uma olhada lá. Até mais meu filho, por favor, evite sair na rua, temo por sua segurança. Alguns fanáticos podem não compreender que lhe perdoei, e tentar fazer algum mal a você. Como eu ja disse, a noticia de que você é o líder já está se espalhando e em breve o povo todo estará ciente.Tentarei convence-los de que você é um bom homem e não tem nada a ver com isso.Mesmo assim,cuidado, por favor.
-Sim, vou me cuidar. Não se preocupe, obrigado. Até mais.

Fulano continuou sua vida normal, observando.Durante dias pensou em uma forma de agradecer a prova de confiança que o Rei lhe ofereceu. Resolveu,de alguma forma,recompensar o rei. Decidiu,por fim,ir ajudar nas obras.
- Senhor, quero ajudar a construir sua estrada,sei que é seu sonho.
- Fico muito feliz meu amado Fulano, com você, somos mais fortes. Uma família feliz e forte age assim. Muito obrigado.
- Sem problemas. Vou mostrar como é mais fácil manejar os instrumentos usando as Mãos.
- Desculpe Fulano, não consigo abaixar a cabeça para ver, estou com um terrível torcicolo. Mas imagino que seja incrível mesmo. Por favor, trabalhe, mas não exceda seus limites.
-Tudo bem, obrigado senhor. Vida longa ao Rei!
- Amém. Até mais.
Alguns dias se passaram, e Fulano trabalhava. Concentrava-se ao máximo, em dar o melhor para o Rei. Em um dia de trabalho, o Rei apareceu com alguns homens junto a ele.
- Fulano, tenho uma má notícia a dar para você.
- Ó meu Deus! O que houve?
- Sua casa foi incendiada. Estão tentando de matar, meu pequeno.
- Céus...
- Esses homens cuidarão de você. Serão seus guarda-costas. Eles trabalharão, não só protegendo a você, mas a toda nossa família, contra esses loucos que tentam arruinar a ordem.
- Mesmo com eles aqui, não me sinto seguro para voltar à cidade. Vou construir uma cabana aqui mesmo, assim não precisarei voltar.
- Uma atitude sábia. Traremos comida aqui todos os dias para você. Cuide-se meu filho.
-Tudo bem, obrigado vossa majestade.
Conforme Fulano ia construindo a estrada, desmanchava a cabana e a reconstruía mais a frente, para não precisar regressar o longo trajeto ao final do dia, e assim não gastar muita energia. Enquanto isso, no reino, foi anunciado que o Líder da facção fora preso e executado, e que a partir daquele momento, homens do governo cuidariam para que tais desordens não se repetissem. Foram nomeados Policiais.
Longe da cidade, Fulano trabalhava. Só.

Germano Neto

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