És cola

Eram sete e dez quando Heitor chegou à escola. Logo ao passar o portão, seu pai cumprimentou Severino, o zelador, e depois disse ao filho:
- Até mais.
Heitor entrou puxando sua mochila com rodinhas pelo corredor colorido cheio de adereços feitos de plástico. Um lápis gigante aqui, uma lixeira colorida ali, um mural com trabalhos de papelão e recortes de jornal, um extintor de incêndio e uma professora sorridente com cara te taxo.
- Bom dia Heitor! Sabe o que vamos fazer hoje antes da aula? Cantar o hino nacional! Vamos pro auditório, meu anjo.
De mãos dadas com a dedicada professora, Heitor entra em um grande salão e vê as crianças enfileiradas por ordem de tamanho. Por ser baixinho, vai logo para o início da fila tomar o seu lugar. Os meninos o veem, mas o ignoram. Estão falando sobre carrinhos, desenhos e tênis. As menininhas, todas iguais e de rosa, falam sobre uma famosa cantora mirim americana ou sobre a programação de um canal de música na TV a cabo. A mais feia da turma permanece calada.
Outra educadora, também sorridente e com cara de taxo, porém mais velha que a professora de Heitor, pega um microfone e fala:
- Bom dia, alunos. Vamos cantar o hino nacional? - As professoras, todas uniformizadas, colocam a mão direita sobre o peito e estampam um sorriso no rosto. Severino liga o som.
O hino começa a tocar

"Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
De um povo heróico o brado retumbante,
E o sol da Liberdade, em raios fúlgidos,
Brilhou no céu da Pátria nesse instante "

As crianças abrem a boca e fingem estar cantando. As professoras também. Todos se assustam quando ouvem um enorme estrondo: o transformador da rua estoura e a energia elétrica acaba. O hino também. A professora sorridente, um pouco assustada com a explosão, pede com voz bem calma para todos se acalmarem e ordena aos alunos para que entrem nas salas de aula. Todos entram, exceto Heitor. A professora sorridente diz a sua superior sorridente:
- Esse menino é meio... Excêntrico. - A superior responde:
- Não interessa, coloque-o dentro da sala e dê a eles atividades artísticas. Peça para todos desenharem a bandeira nacional.
- Certo, mas não acho uma boa idéia. Farei outra atividade, as crianças estão fartas de desenharem bandeiras.
- Não importa, coloque-o dentro da sala e dê qualquer coisa.
Severino foi à direção de Heitor e disse:
- Ara, vai pra sala! - Heitor começou a rir.
- Rimou.- E começou a cantar, com a mão no peito:
“Ara, Ara Aaaara!
Ara - ara aa - ara!
Vai pra sala! Sala, Saaala!
Ara - ara praaa sala!"

A professora sorridente, já não sorridente, pegou no braço de Heitor e o levou para sala.
- Que lindo, um dia você poderá ser músico.

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