A praça é minha

Estava escurecendo quando decidiu sair de casa. Decidiu sair sem rumo e ver se em algum instante acharia algum. A principio, evitou andar pela rua: seguiu sempre andando pela calçada.
Passou por vários cruzamentos e mudou várias vezes de calçada. No local por onde caminhava não haviam muitos tipos de calçada: algumas eram de piso fino, algumas eram de pedra e outras de cimento puro. A maioria, velha e quebrada por causa de árvores egoístas que espalham por toda a parte as suas raízes.
Chegou a uma calçada totalmente destruída e, ao torcer o pé, cansou-se de ficar esquivando e mudando continuadamente de calçada e resolveu seguir pela rua. Chegou a uma praça, vazia, onde com certeza sua mente teria espaço suficiente para se expandir sem esbarrar em outra mente. Precisava de um lugar vazio para enchê-lo com seus pensamentos. Sentou num banco de cimento e disse condescendente:
- Boa noite, praça.
E a praça respondeu:
- É sempre boa noite. Pretende fumar?
E ele respondeu:
- Não. - Depois de uma pausa: - Por quê? Iria me proibir?
A praça soltou uma gargalhada forçada e disse:
- Mesmo se eu o proibisse você fumaria. As pessoas vêm aqui para fumar. - Deu uma pausa e disse um pouco mais séria: - E eu gosto da presença delas; a fumaça é só uma consequência, é o preço pela companhia.
Ele respondeu seco:
- Pelo menos você não é fumante passiva.Não terá câncer. Afinal, não tem órgãos, certo?
A praça fez um chiado, as arvores se mexeram, algumas até violentamente e depois ficaram todas em silencio.Alguns instantes depois, respondeu:
- Cada um tem seu câncer. - Uma sacola de plástico passou voando pela frente do rapaz e ambos pararam tudo e a admiraram, logo depois a praça prosseguiu dizendo: - Sou fumante passiva, mas também sou toda passiva. Estou aqui para servir e a única coisa que peço é a oportunidade de servir, porém, ultimamente, tenho sido mais exigente: preciso sempre de companhia, de uma boa companhia. Por não fumar, não posso servi-lo dando refugio à sua fumaça, então como o servirei?

O rapaz tirou um pacote de balinhas do bolso e enfiou duas de uma vez na boca. Enfiou os embrulhos das balinhas no outro bolso e disse:
- Não precisa me servir. Tire uma folga, relaxe. Estou desde que amanheceu pensando em buscar algo e agora também quero relaxar. Só agora ao anoitecer tive coragem de sair procurando e, por seguir sempre pela mesma avenida, cheguei até a essa praça, até você, e aqui estou, fazendo-te companhia, sem esperar ser servido.
A praça, parecendo ofendida, respondeu:
- Sou muito experiente, fui construída há anos e vi crescerem gerações por aqui. Você mesmo, o vi há oito anos, subindo naquela árvore ali, que hoje está toda decepada, digo, podada. Bem, como dizia, sou muito experiente e sei quando alguém está mentindo. Você quer conversar, tem a necessidade de ser ouvido e eu vi isso, sei disso, aposto minhas fichas nisso. Troco a companhia pela palavra. Comece a falar afinal você está aqui para isso e não para me fazer companhia.

O rapaz, intrigado com as afirmações da praça, respondeu:
- Não tenho carência de conversar para me expressar. Sou feliz, faço o que gosto e gosto do que faço. Mas, algo me falta, precisei sair para procurar, mesmo não sabendo o que é. Agora vi algo que me interessou. - Deu uma pausa, esperando que a praça respondesse mas rompeu o silencio antes disso: - Preciso de sua experiência.Troco a companhia diária pela sua experiência.
A praça respondeu:
- Agora que sabe o que quer, sei como servi-lo. - O rapaz rompeu dizendo:
- Não vai me servir: vamos trocar favores. - a praça continuou:
- Minha vocação, minha utilidade, minha existência, é servir. Sou feita para divertir, sou feita para quebrar a monotonia da cidade, sou feita para deixar tudo mais verde, sou feita para acolher, sou feita para... - foi interrompida de novo pelo rapaz que disse:
- É feita para se lamentar?

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