Sabe gurizada, vou contar uma história. Eu tava indo buscar minha aposentadoria num banco no centro da cidade, tava indo de ônibus, diga-se de passagem, apesar que eu não pago passagem, mas o trocadilho não poderia ser desperdiçado. Tava na porta, pronto pra descer, quando ouço duas cidadãs trabalhadoras conversando enquanto olhavam no espelho retrovisor na saída do ônibus. Diziam algo assim, vou tentar reproduzir pra vocês:
- Menina do céu, que horror que tá meu cabelo! - E a outra, por reflexo, ou melhor, reflexo do reflexo da refletida, disse:
- Ah, o meu também, olha só! Sabe, eu trabalho como doméstica, uma governanta de casa melhor dizendo, sabe? Então, me fazem usar o dia todo essas borboletinhas no cabelo pra manter ele preso...
- Ah, mas daí isso estraga o cabelo, né?
- Sim, mas eu já tô tão acostumada a usar que quando não uso sinto um vazio... Agora, detesto o cabelo sair com o cabelo solto. Adoro ele preso, sabe?
O ônibus parou e elas desceram conversando. Fiquei pensando: a mulher prefere ser a profissão do que ela? Ou ela é a profissão? O papel grudou e agora não descola. Posso estar errado, mas isso pra mim é errado. Mas por outro lado não sei se ela que escolheu isso ou escolheram pra ela. Coisas da vida. Veja eu, escolhi ser o que sou, mas o que sou é o que sobrou. Com o que sobrou, fiz o que sou o máximo que pude, e fiz algo bão, viu? Fiz muitas coisas, e estou com a consciência limpa, posso morrer em paz. Mas e essa mulher? E tantas outras como ela, de outras profissões e outros sexos? E aqueles que nem fazem, mas falam que fizeram? Esses eu não entendo muito, mas entendo menos o porquê de serem os que ficam famosos. É, vivendo, concluí que as pessoas gostam mais de mostrar o pau do que matar a cobra. Eu mato é na mão! Eu mesmo, já matei muita cobra, mas não saí mostrando, nem tem necessidade de mostrar. Acho que fez a diferença, mas quem leva o mérito é quem mostrou o pau. Meu nome é Zé, só Zé, mas não diga que não sou ninguém.

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