Herança

Hoje sou velho e doente,estou prestes a morrer.Sou sustentado pelo INSS,não tenho família e sou esquecido.Escrevo aqui minha herança,trechos da vida.
Quando garoto,fui poeta,sem saber.A vida rimava comigo,e eu com ela.Cantava,brincava,imaginava.Viajava nas mais emocionantes fantasias ; piratas,polícia,médico,bombeiro,super-heroí,bandido...Não esquecia nenhuma música que ouvia.Ótima memória.Desenhava casinhas,campos com sóis bonitos,àrvores,aviões,trens,carrinhos,pessoas...Fui a flor de minha casa.Meu pai era meu herói.Cresci, em tamanho e em barbas. Tornei-me músico, contestei a ordem da sociedade. Tinha amigos revolucionários .Li obras de autores revolucionários,tornei-me revolucionário.Isso foi na época da ditadura.Passei de poeta inconsciente à revolucionário sem opção. Lutar era preciso. Viajava nos pensamentos mais fantásticos para uma sociedade melhor ; sem fome,sem desigualdade social,sem opressão ou censura.Admirei grandes homens,revolucionários.Viva o socialismo ! Organizamos passeatas,publicamos panfletos e manifestos – usando pseudônimos.Pertenci a uma geração de heróis,como todos pensaríamos mais tarde.Amadureci,em cabeça e em barbas,agora brancas. Tornei-me critico e filósofo.Escrevi artigos de todos os tipos,sem censura,sem ditadura.Acabou o sonho de socialismo,mas ainda criticava o capitalismo.O país tornou-se corrupto,ainda mais.Critiquei a corrupção,adotei a ironia.Critiquei a sociedade globalizada,alienada e consumista.Eu era um revoltado,mas não era agitado.O crítico nasceu da podridão dos outros.O filósofo nasceu de minha experiência,filha bastarda de minha antiga ideologia,não aplicável naqueles tempos. Voltei a tocar e a compôr. Compûs musicas parecidas com as de minha juventude.Com a fama de crítico-intelecutal,não tardei a conquistar fãs.Passei bastante tempo no mercado,fui à programas de Tevê à cabo.Mas as pessoas se cansaram e pararam de comprar.Compûs então,musicas românticas,tema que sempre odiei,mas que vendia naquele momento.Só tive sucesso entre os mais velhos,por eu ser velho.Deixei de lado a interpretação e comecei a escrever letras para vender.Músicos famosos que estavam no auge de suas curtas carreiras as interpretaram,em programas de auditório na Tevê aberta.Perdi a fé em heróis. Minha filosofia,minhas criticas,minha arte,antes feitas para mudar o mundo,tornaram-se entretenimento barato.Aposentei-me de tudo isso,procurei outra atividade.Pintar telas e trabalhar com cerâmica era algo interessante.Fiz jarros,potes,vasos disformes.Pintei campos vermelhos,arvores sem folhas,campos desmatados,sóis roxos ; retratei o cotidiano das cidades,trânsito congestionado,metrôs lotados,aviões caindo...O Mal de Parkinson me fez largar essa atividade.Estou velho,gasto.Ultimamente fiquei doente,coisas do fígado.Sei que agora não escapo.Não quero imaginar como é o além,muito menos o que ficará aqui – à sete palmos.Pedi a meu afilhado que me trouxesse esse notebook,no qual escrevo agora.Não tenho muitos bens,mas doarei o pouco que tenho à caridade.Ao menos uma coisa útil e de verdade farei nessa vida sem sentido.

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