Penico do Matagal

Estou com tantos hematomas no corpo, que nem consigo distinguir a quem cada um deles pertence .Aliás,um deles,o maior e que dói mais,esse eu sei de quem é.Está grampeado em minha alma com estas palavras: “Filho meu não apanha na rua.Se apanhar na rua,apanha em casa.Imprestável,arruaceiro...”
Hoje cedo,estava indo à mercearia de meu tio, onde trabalho, quando avistei um velho,agachado no mato.A principio,minha malícia me fez rir da ridícula posição a qual se encontrava o velho. Estava de quatro,as vezes se agachava,depois voltava a ficar de quatro.Acho que procurava algo no mato.A rua estava cheia de gente mas ninguém se importava com o velho,todos o ignoravam.
Um rapaz,alto e robusto,estava passando de bicicleta,avistou o velho,riu dele,flertou com uma moça que vinha - quase caindo da bicicleta - e continuou seu caminho.Enquanto isso,a moça,bem farta e de olhos claros ,(acho que eram claros,minha visão focava outra coisa...)passou e riu da posição do velho,arrumou o cabelo,rebolou um pouco mais seu andar, quando viu o rapaz que descia de bicicleta em direção a ela,e continuou seu caminho. Um garoto passou com um cachorro vira-latas,esperou ele cagar no mato,não muito longe de onde o velho estava,riu do velho,ou da força que o cachorro fazia,e tentou seguir seu caminho .Haviam alguns barracões em frente,e uma mulher gorda,dessas que são o homem da casa, dava um esporro nas crianças que não queriam ir à escola.Na porta da casa ao lado,outras duas donas de casa batiam papo,com as crianças “encapetadas” correndo por perto.E ninguém ajudava o velho.Uma outra mulher lavava com uma mangueira a calçada da porta de sua casa.E eu apreciava a isso tudo,indignado,pela indiferença dessas pessoas.Mas não ajudei o velho.Continuei meu caminho.
Ao chegar ao trabalho,contei tudo a meu tio,que fez cara feia diante da minha atitude,e iniciou uma palestra sobre cidadania,para os atentos ouvintes;os cigarros,as balinhas e garotos ruins que não ajudam as pessoas,tendo como palco o balcão da mercearia.Falei a ele que voltaria lá para ajudar,seja o que fosse.” Não,seu arruaceiro.Quer usar esse pretexto pra folgar o dia de trabalho,não é? “ Então,confuso,fui limpar as prateleiras.Imaginei como seria o mundo,se todos ajudassem velhos no mato.Seria chato,os críticos morreriam de tédio,ou sem serviço,passariam a trabalhar em mercerarias.Ao decorrer do dia,vários clientes foram comprar alguma tranqueira na mercearia.Como meu tio não estava,eu que cuidei do caixa.Dentre eles,rapazes robustos,mulheres de olhos claros,donas de casa com ou sem crianças “encapetadas” e garotos com cachorros.Na maioria dos casos,vendo que quem cuidava do caixa nesse dia era eu,não meu tio,apareceram com os salários atrasados ou tinham esquecido o dinheiro em casa...Adicionando a filosofia de meu tio,transmitida na palestra, com um toque de pirraça,resolvi tomar as dores,e permiti que pagassem depois,com a condição que não comentassem aos vizinhos e amigos,e principalmente com meu tio, que na mercearia agora se fazia fiado.O garoto com o vira-latas,entrou de novo na mercearia,agora com o cachorro.Pedi que deixasse o cachorro do lado de fora,mas ele me ignorou.O cachorro,para piorar,começou a mijar encima de um saco de farinha de rosca,que estava no chão.Gritei com o moleque e o expulsei do mercado.Disse que eu ia pagar caro por isso e me xingou.Ele saiu correndo com pacotes de salgadinhos e refrigerantes e como o mercado estava cheio,não pude segui-lo para tomar de volta.As coisas não paravam de piorar.Logo depois a mãe do garoto,mulher do pastor,veio tirar satisfações.Disse que contaria essa falta de educação e essa brutalidade para meus pais e que exigia uma indenização,ou processaria o estabelecimento.Meu tio chegou nessa hora.Ouviu a mulher reclamar que o sobrinho havia ofendido,sem motivos,o filho dela e que chutou o pobre cachorro.” Esse sobrinho seu é um endemoniado! “ Ouvi outra palestra,agora com um tom ameaçador,sem poder replicar nada...
Pouco antes das quatro e vinte,o horário que vou para casa descansar e estudar ( estudar...),meu tio mandou eu abrir o caixa,que já já ele viria conferir ,depois de bater papo com o carteiro que passava na rua.Falavam do clima chuvoso e da corrupção do governo.Tudo exatamente como ouvi no jornal da Tevê...Entrou rosnando coisas que não ouvi,pegou um maço de cigarros para levar ao carteiro,quando,inevitavelmente,viu o caixa,vazio.Vazio não,tinha alguns trocados,mas comparados a outros dias,relativamente vazio.” Hoje vieram muitas pessoas aqui,Dona Iraci,Dona Irene e a Dilamar,saíram daqui com sacolas cheias...e também tem o povo que veio aqui enquanto eu estive fora...cadê o dinheiro?” Meio atrapalhado,respondi que as duas primeiras alegaram estar sem dinheiro e passando necessidades.A outra,mais jovem,disse que ainda não recebeu o salário,e sem falta,dia quinze virá pagar.” Certo,e as outras pessoas? Fez fiado também,seu bostinha?Ora,parece que não aprende? Já te disse que dinheiro se ganha com trabalho,suor...Seu pai me fez te dar esse emprego pra sair da rua,virar homem...E me vende fiado,de novo? Ora...” Cortei a fala dele,me desculpando e dizendo que não vai se espalhar isso,ninguém além deles vai saber que fiz fiado e não virão pedir. “ Acho bom mesmo,senão falo pro seu pai te dar aquele toma jeito...” Ao falar isso,senti um nó na garganta,recuei um pouco,sentei em um banquinho de trás do balcão.Ouvi lá fora:
-Está aqui Inácio,toma ai o cigarro,é desse aqui mesmo né?
-Opa,obrigado Tião,desse mesmo.Até mais,daqui a pouco chove,vou correr.
E ficou esperando o dinheiro,vendo que não vinha,disse:
- Inácio,vai me pagar amanhã?...
- Ah sim! Quando der,desculpa Tião...
- Sabe que não gosto disso...
- Ah rapaz! Vai dizer que pras donas do matagal faz fiado,mas pro irmão aqui não?
-Ah, então é isso...Vai,leva.Quando der você paga.Mas é a primeira e última vez.Até
-Até, compadre!
Meu tio veio bufando,gritou ,gritou e gritou, mandou-me embora.Disse que mais à noite,iria lá em casa,ajudar no “ toma jeito “.E disse que eu não tenho mais o emprego.Na volta, passei pela mesma rua,tinha chovido um pouco.Algumas mulheres estavam conversando,uma delas a Dona Irene; outras estavam lavando a calçada com a mangueira.Vários jovens conversavam na rua.Um deles,ex-colega de classe,com o qual eu tinha vários problemas...veio com uma expressão de escarninho dizendo “ E aí pintinho,fiquei sabendo de uns esquemas ai, você volta no mercado hoje? Tipo,vende uns cigarros ai,pago você daqui a uns dias...” Mandei ele se foder,estava muito irritado com todos e ainda por cima isso...Ele me xingou e me ameaçou.Entrei na rua do matagal e vi,de um lado mulheres na calçada conversando e do outro,no mesmo lugar,o velho de quatro no mato.Algo me atraia pro velho.Não sei o que houve,quando dei por mim já estava entrando no mato molhado,chamando o velho.Não me respondeu,talvez porque só atenda pelo nome,que eu não sei qual é.Notei que a força que me arrastava era nada mais, nada menos que curiosidade ; precisava de algo para limpar minha cabeça,tumultuada.Ele se virou,me olhou e voltou a ficar de quatro,procurando algo.
- O que procura?- Estiquei o pescoço,tentando adivinhar o que era.
- Meu pinico! Vá embora!
Pude ver que nem era tão velho assim,devia ter de 55 a 60 anos,mas estava em péssimo estado.
- Vá embora, ande.Daqui a pouco os infiéis chegarão. Preciso achar meu pinico.
- Eu o ajudo... - Notei que o velho que não era velho,era na verdade um louco.Nunca deve ter saído daqui e,sem preconceitos, deve ser um ignorante. Viu essa historia de infiéis em algum filme.É impressionante como temos facilidade para aprender o que não é útil.
- Senhor,o senhor passou o dia todo ai agachado e ainda por cima está molhado,choveu muito forte aqui.Devia ir pra casa,trocar de roupa e descansar.Pode pegar uma gripe,ou algo pior...na sua idade...
-Ora,como,como ousa dizer isso? Não estava agachado.Passei o dia todo aqui, orando voltado para “Maca”,Allah me protege,sou fiel. Preciso achar meu pinico.
- Meca...Ele não está em outro lugar? – Comecei a conter o riso
- Idiota! Acha que não sei a direção? Maca fica pra essa direção! Maldito...vá embora logo!
- “Maca”,as gargalhadas saiam,comecei a perder o ar. Eu não conseguia ir embora, aquele velho louco me prendia. Acho que precisava me divertir um pouco nesse dia, dia cão, e sei que o pior ainda estava por vir.É bom se divertir assim,a desgraça se faz circo.O circo ameniza nossa dor.Estava refletindo sobre isso quando fui interrompido pelo velho louco “ mulçumano”,que levantava devagar,com um olhar psicótico dizendo:
- Allah me disse! Sim, sim...Meu pinico, devolva! Infiel eu sabia... Desde o inicio...Maldito infiel de merda!
- Eu não peguei seu pinico,só quero ajudá-lo a encontrar... – Então,o velho foi aumentando o tom da vo aos poucos,até começar a gritar.Com uma expressão de fúria, começou a avançar em cima de mim,gritando sem parar:
- Meu pinico! Meu pinico! Devolva cretino! Patife, seu merda, infiel de merda! Merda! Pinico! Pinico! - Segurou-me pela camisa gritando e cuspindo:
- Pinico! Pinico!
Me soltei deie e corri.O louco pegou duas pedras e as jogou em mim.Tropecei em um buraco antes de chegar a rua. Ele vinha gritando,atirando pedras e atraindo à atenção de todos.Nesse momento,meu ex-colega passava,talvez me procurando,agora com uns oito amigos,e se aproximou para ver melhor a cena.Não só ele,mas outros rapazes e até a moça de olhos claros,que voltava de algum lugar,vieram assistir ao espetáculo.De longe,as mulheres lavando calçada pararam para tentar ver o que acontecia,mantendo as mangueiras ligadas.Agora eu estava no picadeiro...O louco pegou um galho de árvore,veio correndo e gritando do meio do matagal:
- Ladrão! Ladrão de pinicos! Ladrão! Ladrão! Infiel de merda,infiel de merda.
- Ou tiozinho,o pintinho te roubou algo? Disse um dos rapazes,que devia me conhecer de algum lugar,por saber o apelido.
- Sim, vou linchá-lo! Maldito!
- Opa, simbora ajudar o tiozinho!
Nesse instante, eu estava focado no velho e não notei o que o publico dizia.Percebi que não gostaram do espetáculo,e resolveram participar.Levei um chute nas costas.Dois chutes,três chutes.Todos a meu redor começaram a me bater.Os rapazes,o ex-colega,umas crianças, a mulher dos olhos claros,o louco e até umas donas de casa,eu acho.Depois de um minuto,ou mais ( com certeza mais...)uma das donas de casa, que lavava a calçada,começou a jogar água com a mangueira em cima do enxame de pessoas,que me linchavam.Alguns saíram com a água,outros por respeito.Era a esposa do pastor da vizinhança.Sobrou o louco,que se aproximou rindo,se abaixou e tirou minhas calças,me xingou, e disse que a lei do auto-mar é essa e que marujos que tentam fazer motim, o capitão toma-lhes as calças antes de andarem na prancha. Disse algo assim,não notei,estava preocupado em gemer. Notei que tinha até um cão, quando a mulher o chamou.Uma outra vizinha ligou para a polícia.A mulher e o filho menor do pastor vieram correndo acudir-me.Me colocaram sentado na calçada.Eu não tinha nenhuma fratura,mas estava esfolado e dolorido.O pastor apareceu no portão, indignado.Gritou com o cachorro,que não queria entrar e foi para o lado da esposa. O pastor perguntou a mulher o que houve,entrou correndo pra dentro de casa e voltou,com uma bíblia nas mãos.Sereno,porém,austero,ele começou a ler trechos da bíblia, e falar algumas palavras.Vi que,na verdade,estava querendo me absolver de algo.Suas palavras soavam à sermão.Começou a me repreender.Tive vontade de o explicar tudo,depois de o xingar,mas um carro descia correndo a rua do matagal,com a sirene ligada.A policia chegou,um dos guardas pediu licença ao pastor,o outro de cara fechada já me deixou de pé,pouco se importando com meus ferimentos.Vi que o filho mais velho do pastor escondia seus punhos , sujos e vermelhos,da vista do pai . O policial de cara feia me enfiou no porta-malas do carro.Disse ao pastor e a esposa que isso é normal nessa região.O pastor, irritado, insinuou que a policia é incompetente,e que devido a isso,a população sem Deus acaba querendo punir delinqüentes por si própria.O policial de cara fechada entrou no carro,enquanto o outro conversava com o pastor,sobre a precária educação nesses bairros mais afastados, começou a lamentar a falta de policiais para monitorarem essas regiões e despediu-se,falando que domingo vem almoçar com a mãe e aproveita pra ir ao culto.Fiquei mofando no carro durante um bom tempo,os policiais não foram direto para a delegacia.Pararam em vários lugares.Depois de mais de uma hora,me jogaram em uma cela.Às onze e trinta meu pai chegou e me levou,em silencio.Tentei esclarecer o mal entendido dentro do carro,mas ele permanecia calado.Quando entrei em casa,minha mãe ,suplicante,disse a meu pai “ Por favor Alberto,não machuque o menino,olhe o estado dele,deixe isso para depois “
-Não, a cara dele ainda tá limpinha,cretino,ladrãozinho de merda! Faz arruaças na rua, boto o infeliz para trabalhar. Faz anarquia no serviço do tio,sai na rua,batendo em retardados e roubando coisas.Dai volta à arruaça.E ainda vai preso! Que vergonha, meu Deus, que vergonha!
Apanhei mais um tempo,ouvi sermões e palestras.Na outra semana,fui inscrito na juventude de Deus,um programa do Exercito da Salvação.Voltei a trabalhar com o tio,agora sem receber.


23/05/09

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