Rápido resumo de uma vida resumida

É doloroso sentir ódio tendo consciência da verdadeira natureza do ódio. Odiar sem motivo, odiar compulsivamente. Desde cedo, ainda na infância, Madalena já mostrava ser uma pessoa de boa índole. Brincalhona quando estava com os amigos mais calados, taciturna e tímida, quando estava com os amigos mais brincalhões. Sozinha, era uma pessoa reflexiva e sensível. Sempre fez caridades, nunca divulgando a ninguém, pois sempre teve em mente que "é necessário fazer o bem, mas ninguém precisa ficar sabendo, fazer pouco e exibir-se para mostrar-se boa, seria pura hipocrisia e egoísmo". Pensava assim, a invisível garota. Quando moça, na faculdade, teve poucos amigos, por não gostar de conversar e ter vergonha de ter intimidade com outras pessoas. Entrou numa pastoral de uma igreja para ajudar os pobres que moram em favelas nas encostas de rios que trespassam a cidade. Formou-se, mas não conseguiu emprego. Aos trinta e cinco anos morava com seu pai, sua mãe já era falecida. Teve dois namorados a vida toda: Um, aos dezesseis anos, o amava muito, por ele ser inteligente e bonitinho, mas na verdade o amava por ser o único que a olhara com desejo, até aquele momento. O garoto não a achava lá grande coisa se aproximou dela por ver que seria uma presa fácil, afinal ele era o único da turma ainda virgem e precisava sair dessa condição o quanto antes,não importando com que fosse perder sua virgindade. Como toda adolescente, Madalena tinha seus sonhos e desejos, o fogo juvenil ardia nela também. Então, após muita insistência do garoto e uma aparente resistência de Madalena, ela cedeu. Foi uma tarde mágica. Ela sonhava todas as noites com sua primeira vez; ele, contou a todos os seus amigos os detalhes e toda a noite masturbava-se com a lembrança. O segundo, aos vinte anos aproximou-se dela por ser parecido, em quase tudo, pois era um rapaz de família rica que abandonara tudo para ser seminarista, ele vivia na igreja onde ela participava das pastorais. O rapaz apaixonou-se por ela, largou o seminário e dedicou-se inteiramente a sua doce amante por seis meses. Terminou com ela, pois conheceu uma modelo, belíssima, que o seduziu e o encheu de “luxúria", como dizia pra si mesmo enquanto saía da igreja dirigindo a pick-up que ganhara do pai. Madalena ficou sozinha; pensou em se tornar freira, mas por mais que os fatos negassem, ela ainda tinha fé em encontrar um bom homem, que estivesse disposto a casar-se e formar família, um homem que cuidaria dela e aceitaria seu pai em sua casa.Um homem de fé, que honrasse sua palavra e que,assim como ela, se preocupasse com os excluídos.Aos cinqüenta anos de idade, seu pai morreu e ela, por não ter renda alguma, passou por grandes necessidades.Passou a viver de favores.Conseguiu o emprego de merendeira em uma escola na periferia.Agradecia a Deus todos os dias por ainda ter amigos, caso contrário estaria na sarjeta. Não deixou de ir à Igreja, não deixou de ajudar aos pobres, não deixou de sonhar em casamento.
Um dia, um jovem que vivia nos barracos na beira do barranco esteve muito doente. Madalena passava por perto quando a chamaram, ela, sempre prestativa, foi na mesma hora ajudar à família.
- Leve ele a um médico agora! Chamem uma ambulância! Exclamou desesperada ao ver o estado do jovem, afinal ela era enfermeira e tinha uma certa noção do que se passava com o garoto.Ficou triste ao ver o garoto: o conhecia da rua,sempre tão arisco, como passarinho, correndo pelas ruas asfaltadas nas encostas do poluído rio.
- Não adianta, já o levamos. Tinha muita fila e ninguém quis atendê-lo.A ambulância disse que só atende casos de acidentes... Disse o irmão mais velho do jovem.
- Vocês não deviam ter trazido ele de volta! Madalena pediu panos úmidos e fez um chá.Tirou seu rosário e começou a rezar aos pés do garoto.O flagelo durou três dias,e o garoto se curou rapidamente.Nos hospitais,várias pessoas eram internadas em UTIs e morriam da mesma doença que se abatera sobre o jovem favelado.Mas ele, em três dias,estava curado.O pai do garoto, um famoso cantador de pagode,espalhou para todo o povo que Madalena fizera um milagre,curando seu filho em três dias.Seu quartinho alugado nos fundos da paróquia,tornou-se muito visitado.Vinham pessoas de todos os cantos da periferia para pedir ajuda a "nova Santa".Passaram-se dois anos e Madalena já era muito popular nos subúrbios da capital. Ajudava a todos e as pessoas lhe retribuiam com pequenos gestos, pequenas provas de gratidão. Apesar de serem pessoas humildes, sempre oferiam mais do que tinham para Madalena,que claro, recusava. Certa vez, Madalena concluiu que por mais que trabalhasse, a situação daquelas pessoas não muduria: é necessário fazer algo de cima pra baixo,afinal o Governo está aí para governar, cuidando de toda a população...Ao ver que as eleições se aproximavam, Madalena teve uma idéia: se candidatar à vereadora, para melhor atender a toda essa massa de excluídos.Filiou-se a um pequeno partido e se preparava para as eleições.Mas, por ironia do destino, seu namorado de tantos anos atrás,o ex-seminarista, também estava se candidatando.Veio à sua antiga paróquia, com sua jovem esposa, dizendo que já fora seminarista ali, que sempre se manteve católico e ajudando aos pobres e prometeu grandes coisas àquele povo.O povo, sem muito dar atenção a ele, o aplaudiu.O voto de todos daquela comunidade, era ,sem dúvidas, de Madalena.Sabendo da popularidade de uma tal de Madalena,que depois veio descobrir que se tratava de sua antiga namorada, o Ex-seminarista resolveu visitá-la, propondo:
- Madalena, você sabe muito bem que, mesmo você se elegendo, não conseguirá fazer nada por esse povo.
- Isso não é verdade! Assim que me eleger, com a benção de Deus, mostrarei a todos da câmara o que é a periferia e "proporei" melhoras a esse povo esquecido!
- Madalena,Madalena.Você é muito inocente, muito pura...Política não é para pessoas assim...Desista disso e me apóie, eu já tenho a lábia, tenho influências, se é que me entende...
- Não! Esse povo confia em mim!
- Por isso mesmo, já imaginou como seria se você não fizesse o que prometeu? Frustraria a todos, todos a odiariam...Continue cuidando dos pequenos e me apóie, eu farei grandes coisas por esse povo...
E a conversa durou horas ainda, afinal, como sempre, Madalena resistia e o ex-seminarista insistia.O ex-seminarista,já sem paciência e sem argumentos, disse:
- Tudo bem, essa conversa não vai nos levar a lugar algum.Quanto você quer para deixar tudo?
- Não acredito nisso...
- Olhe pra você! Que lixo que está! Tem a aparência de uma mulher de cem anos! Olhe pra sua casa, que horror! Vamos, quanto quer? Dez mil está bom?
- Saia agora da minha casa!
- Escute sua porca, você vai se arrepender muito disso!
- Saia!
O ex-seminarista saiu irado e Madalena trancou-se em seu quartinho e desatou a chorar. Tinha ódio do mundo, ódio dos outros, ódio do dinheiro, ódio de sua vida miserável. Bateram na porta, com certeza era alguém pedindo um milagre. Mas como podia fazer milagres se tinha uma vida tão desgraçada? Por que Deus é tão injusto? Madalena, apesar de ter mais de cinqüenta anos, parecia uma criança brigando com o pai por terem lhe tomado a boneca. De fato era muito inocente, ainda não aprendera a lidar com a vida. Ainda batiam na porta, mas agora gritavam também:
- Madalena! Madalena! Abre minha filha! Por favor!
Enxugou as lágrimas e abriu a porta. A mulher dizia que seu filho havia desaparecido.Madalena esqueceu-se de toda sua dor e saiu na mesma hora de casa para auxiliar nas buscas.Madelna sugeriu ligar para a polícia,mas seus vizinhos rejeitaram a idéia: a polícia não se preocupa nem em pegar bandido,quanto mais em procurar garotos...Apesar disso,uma viatura auxiliava nas buscas: o PM era cunhado da prima de algum dos moradores. Procuraram o resto da tarde sem nada encontrar.Algumas pessoas diziam que o tinham visto soltando pipa perto do rio.Madalena e duas mulheres foram procurar na encosta.Já estava escuro.Olhando ao redor, avistaram algo boiando,parecia um corpo.Madalena mandou chamar os homens e, vendo que de longe algo parecia se mexer lá,não pensou duas vezes e pulou dentro d'água.A correnteza estava forte, a água fedia muito.Quando já estava no meio do rio, ouviu uma voz que pedia para voltar.Ignorando,continuou nadando.Quando tocou o corpo, assustou-se:era só um saco de lixo,com alguns trapos velhos dentro.Ao sair d'água, cortou o pé em uma lata que estava no fundo do rio.O garoto foi encontrado horas depois, tinha ido ao centro da cidade com uns garotos mais velhos.Assim como todos, Madalena ficou muito contente e aliviada ao ver o menino.Madalena chegou em casa e caiu em uma profunda melancolia.Lembrou-se da conversa que teve com o ex-namorado, lembrou-se do ódio que havia sentido.Dormiu, pela primeira vez em sua vida, odiando alguém.Acordou com febre e dor no pé esquerdo.Só acordou porque batiam em sua porta. Ela, sem condições de se levantar,manteve-se deitada, ignorando o resto do mundo.Voltou a dormir Delirava por causa da febre alta.Olhou para seu pé e entendeu que aquela era uma ótima oportunidade,era "A hora"...Não chamou ninguém, não atendeu ninguém; só mantinha-se deitada, ora odiando o mundo, ora chorando de dor.Passou quatro dias assim, até que veio a falecer.As pessoas assustadas com o sumiço de Madalena, ficaram preocupadas.Depois de duas semanas, começaram a sentir o cheiro de carniça vindo de dentro da casa da Santa.Arrombaram a porta e encontraram o cadáver debaixo dos lençóis.Uma multidão foi ao enterro da santa, dar seu último adeus e pedir bênçãos.Além da multidão de excluídos,estavam presentes um representante do prefeito,artistas, o ex-namorado e claro, a mídia. Durante uma semana, Madalena foi o assunto principal dos noticiários: a santa da periferia. Alguns se orgulhavam de terem a conhecido; outros se orgulhavam ainda mais por ter ajudado ela um dia. Os pobres a quem Madalena ajudou choraram durante dias por sua morte. Não conseguiriam suportar o peso da vida sem sua protetora; procuraram o mais próximo de um protetor que podiam ter: o ex-seminarista namorador. Foi eleito com prestígio e fez muitos trabalhos pelo povo; distribuía cestas básicas, asfaltou as ruas que ainda não eram asfaltadas, dava pequenos empregos a quem lhe pedia, ajudou a colocar iluminação no pacato bairro, ajudou depois ( quando se elegeu governador) a criar um bairro para as pessoas da beira do barranco poderem morar...O tempo passou e a cidade cresceu; o ex-seminarista foi eleito para o senado e depois de anos no plenário, morreu infartado em seu apartamento,com sua amante. O pessoal da beira do barranco, agora o pessoal do afastado matagal, continuou do mesmo jeito; agora com asfalto e iluminação. E as recordações de Madalena foram se apagando com o tempo, até sumirem ou até surgir outra Madalena que conheça o lado lindo e o lado podre da vida, que sonhe com um futuro melhor, que tenha garra de lutar por tudo, menos por sua vida; que surja novamente uma mulher sem ódio.

Germano. M.F. Costa Neto 12/08/09

Minha lista de blogs