Oh man!
Desde o final da adolescência ele não dorme, mas nos últimos anos o problema se agravou. Mesmo quanto ao deitar-se com muito sono, logo o perde; seus pensamentos mantêm-se na ativa sem cessar. Enfia a cabeça no travesseiro, vira para um lado, vira para o outro lado, põe o travesseiro sobre o rosto, tira-o e o joga no chão, vira pra cá, vira pra lá... Começa a suar, tira a camisa. Sente frio, a coloca. Liga o ventilador. Fica incomodado, desliga o ventilador. Desiste de lutar e passa a desfrutar. Relembra de todos os detalhes de seu dia, os critica, pensa em soluções melhores, recrimina-se por tomar decisões erradas, recrimina-se por se arrepender de suas decisões. Lembra de seus amigos; das alegrias, das decepções, das superações, da hipocrisia... Chora, sem cair nenhuma lágrima. Faz planos, os desfaz e os refaz. Pensa no amor, com ódio. Pensa no ódio, com compaixão. Inventa mil e uma historias, ri delas, chora com elas, as esquece. Durante anos foi assim. Certa vez, mantinha o hábito quando foi trazido à realidade por um som: um zumbido, um pernilongo. Tenta acertá-lo, inútil. Ele é esperto. Acende a lâmpada mas não o encontra em parte alguma:” – Ah, foi embora o puto!”, volta feliz para a cama. Mal fecha os olhos, o zumbido novamente.Começa a suar, faz muito calor.Tira a camisa e liga o ventilador.Já não pensa em mais nada; concentra-se em tentar escutar o zumbido, prepara-se para qualquer eventualidade, o inimigo está perto. Na segunda noite faz uma rápida inspeção no quarto, procurando o esconderijo do maldito.Não havia nenhum sinal dele. Apaga a luz e deita.Começa a se lembrar do que fez no café da manhã: tomou café e assistiu um telejornal. Lembrou-se de uma moça que trabalha na mesma firma que ele; ela fica linda conversando com as amigas...Suspira. Ouve o zumbido: “ - mas que caralho! Você voltou cretino!”. Experiente, repete o mesmo processo da noite anterior. A princípio parece surtir efeito, mas em menos de quinze minutos, volta a ser assediado. Assediado, pois lembrou-se de uma vez em que sua tia disse que os pernilongos que “cantam” não são pernilongos, são pernilongas...Essa noite não é só uma pernilonga, são duas. Começa a gritar, a espernear.Acende a luz de seu quarto microscópico e os vê voando; são três na verdade. Consegue matar um, o mais gordo.Suas mãos ficam cheias de sangue.Sorri de satisfação.Resolve ir a cozinha fazer um chá oriental que uma amiga lhe ensinou, “ tiro e queda”. Já que está acordado, aproveita e liga o som, que raramente usa. Procura dentre seus milhares de CDs, organizados por ordem alfabética, um CD em especial, “ Mantras e Cantos”, sugestão de outra amiga, metida a indiana.Se sente feliz tomando um delicioso chá enquanto seu apartamento se enche de paz.Acende uns incensos, para espantar o mal olhado. Volta em paz para seu quarto e se deita na cama. Os mantras ainda ecoam em sua cabeça. Ainda ouve um ou outro zumbido, mas os ignora: está em paz.Acorda atrasado, toma um rápido café, entra no carro e entra no engarrafamento. Para levantar o astral, liga o som do carro; músicas divertidas de uma banda americana, bem extrovertida. Logo se enjoa e muda para um CD de uma banda alternativa, aqui do Brasil mesmo, mas que canta em inglês.Discretamente, canta junto. Chega ao trabalho, cumprimenta suas amigas, seu chefe e alguns colegas de trabalho.Ao fim do dia, vai a um bar bem badalado, freqüentado principalmente por intelectuais e artistas, que se reúnem para beber e discutir questões existênciais. Vez ou outra, jogam pocker. Chega em casa, tira um congelado do freezer e o enfia no microondas:” – Hoje vou comer lasanha!”“. Janta feliz e vai se deitar. Vasculha o quarto atrás de um pernilongo, não o acha. Começa a reviver cada momento de seu dia; o café da manhã, o dia de trabalho, as garotas que achou atraentes no bar, a deliciosa lasanha ( quase igual a da mamãe) e a pernilonga.Onde estará? Ouve o zumbido e finalmente começa a luta contra a pernilonga. Após meses lutando contra elas, resolve tomar uma atitude: comprar um repelente (sugestão da amiga indiana, que não come carne por amor aos animais, mas odeia insetos).Lê as instruções: 1- pressione durante seis segundos; 2- Mantenha o ambiente fechado durante quinze minutos; 3- manter longe do alcance de crianças; 4- Para obter um melhor resultado, pulverize diretamente sobre os insetos Segue a risca as instruções. Enquanto espera os quinze minutos, lê uma revista de saúde masculina enquanto toma seu suco diet de laranja com soja.Descobre que a tendência para esse inverno é usar vermelho. Vai se deitar pensando em suas roupas vermelhas ( as que tem e as que ainda vai comprar). Nenhuma pernilonga, só paz. Depois de algum tempo pensando, como sempre faz, dorme feito um bebê. Mais alguns meses se passaram e as pernilongas não voltavam; o repelente estava funcionando. Um dia, ao voltar do bar, encontrou sua casa repleta de pernilongos voando para todos os lados. Irritado, correu ao armário e pegou a lata de repelente e começou a pulverizar o apartamento todo. Nada funcionava. Foi a uma loja de conveniência e comprou dez latas de repelente. Entrou desesperado no apartamento: havia mais pernilongos ainda! Milhares e milhares de pontinhos pretos no ar, voando. A casa já começava a feder remédio.Mas o ódio por aquelas criaturas infernais era maior: precisava exterminá-las.O ar ja estava enevoado. Ele começou a cantar, parecia dopado. Três quatro latas vazias. Cinco, seis, sete... A cada hora apareciam mais pernilongos. O ar estava ficou muito pesado,sem ar.Janelas fechadas. Tudo ficou preto e desfaleceu. Antes de apagar totalmente, pensou nas garotas do bar, muito gostosas em seu ponto de vista; pensou em suas amigas em suas músicas favoritas; pensou na tendência do inverno, vermelho e na tendência da primavera ( que seria roxo, com certeza),e tentou lembrar tudo o que fez em seu dia. Pensou no bar: as pernilongas tomando vodca.Pensou nas garotas voando na sala,no quarto, o picando a noite toda...Sorriu.A escuridão tomou conta dele.Morreu só, sem ninguém para chamar a ambulância, sem mesmo um cachorro para latir e avisar os vizinhos que havia algo errado...Depois de uns dias, descobriram o corpo.A polícia investigou as causas; intoxicação. O fabricante do repelente alegou que é impossível um ser humano morrer intoxicado com um veneno para insetos: “- Nós temos muitos recursos tecnológicos que garantem que é improvável que esse veneno leve um homem ao óbito. Este remédio foi desenvolvido para matar insetos como aranhas, moscas e baratas. Em grande dose, há a possibilidade de abater ratos.”
No fim, não deixou nada ao mundo; nem aos vermes deixou alimento: sua amiga indiana, a pessoa mais próxima dele, pediu para que cremassem o corpo pois é necessário para que seu espírito se desligue do mundo material. Não era preciso isso, afinal para o mundo, nem mesmo para as pernilongas, que só queriam o sangue, nem mesmo para as garotas, que só queriam seus genes,ele nunca esteve presente.
Germano M.F.Costa Neto 30/06/09