Ao som do quarto movimento da nona sinfonia de Beethoven, ele estava deitado, esparramado, desmontado sobre sua poltrona imunda. Seus olhos vagueavam sem rumo pelo teto do quarto, procurando algo que explicasse aquela sensação que tinha sobre o pescoço, que descia até os ombros e irradiava pelo restante do seu corpo. Fazia calor e o ventilador vagabundo estava quebrado. Já passavam das quinze e trinta.Lembrou-se que tinha um jogo da copa do mundo só pelo simples fato de, apesar do divino som de sua orquestra eletrônica que saia de seu cd player barato, ter ouvido um som estranho, com gosto de africano e impertinência de brasileiro, com um pequeno toque de globalização: uma maldita vuvuzela. Resmungou ainda sonolento:
- Os anjos com suas trombetas honram os grandes heróis que, em toda sua glória, fizeram do mundo um lugar melhor. Os demônios, com suas vuvuzelas, imploram pro mundo atenção honrando e compartilhando com o mundo a única coisa que possuem.
E após isso, caiu no sofá e dormiu.Acordou só à noite, vestiu-se , pegou seu apito e seu cassetete,e foi para seu turno de vigia noturno.