O turista

O turista

As noites na montanha nunca são iguais. Por experiência, posso afirmar, que dependendo da fase lunar, do vento e da empolgação do meu coração, as noites são diferentes. Do alto, a oeste, posso ver a cidade, toda iluminada, mas por maior que seja o esforço que eu faça, não consigo saber se é uma noite boa ou não entre a murada de motéis. Digo murada, pois na ausência de muros, tomo como referencia os postos de gasolinas para caminhoneiros e os motéis que cercam a cidade. A leste, vejo a escuridão do campo, com pequenos focos de civilização, os “vaga- lumes” campestres, acredito que são as televisões ligadas nas casas dos pequenos fazendeiros e de seus peões. Ao sul e ao norte tenho a mesma visão: escuridão da mata. Escuridão que mata... Resolvi descer da montanha e ir visitar a cidade.

Como já era de noite, não esperava ver crianças ou idosos na rua, mas sim jovens desfrutando sua juventude, da forma deles pelo menos, e adultos em seus happy-hours após uma jornada de trabalho. Parei de frente a um bar e vi os jovens adultos de cabelo arrumado, roupa social, acompanhados de um copo de cerveja e, as vezes, de jovens adultas com suas roupas de jovens executivas. Sua recompensa por um dia de trabalho, de certo. Resolvi entrar no bar para beber algo e fazer amizades, mas quando enfiei a mão no bolso, percebi que havia deixado minha carteira lá na montanha... Passei pela porta de casas noturnas, as pessoas me olharam estranho, acho que sou feio, talvez seja porque estava fedendo, aliás ainda estou, mas elas estavam perfumadas, todas com o mesmo perfume, os homens principalmente, as mulheres com o cheiro doce,não sei se é perfume, acho que era. Vi mendigos dormindo no chão, vi bêbados felizes também dormindo no chão, vi homens felizes nos carros voltando ou indo à festas. Todos felizes. Fiquei contente em ver que a sociedade é tão feliz. Parei na porta de uma pizzaria, estavam fazendo rodízio, fiquei vendo as pessoas contentes comerem, se empaturrarem por alguns reais. Um garçon simpático me trouxe um pedaço de pizza e pediu que eu saísse da porta assim que comesse. “ Vai com Deus”, me disse. Deus ficou na montanha, junto com minha carteira, mas pro azar dele, não ganhou um pedaço de pizza. Preguiçoso...

A alegria não está na montanha. Está no estomago. Pensei, juro, por alguns instantes, em não voltar à montanha. Iria à um cartório assim que o dia amanhecesse e me registraria, botaria um nome qualquer e um sobrenome que me fosse útil e tocaria minha vida. Cansado de andar, sentei no chão, sou simples mesmo como você pode ver, e olhei pro céu, mas não porque eu quis, vou porque a cabeça tombou pra trás, sem querer. Entao, vi luzes. Como que as pessoas conseguiram iluminar o céu? Será o teto da cidade todo trabalhado para melhorar a estética urbana? Eram uns pontinhos separados uns dos outros, lâmpadas quase apagadas, já bem antigas de certo, que estavam quase queimando. Falta de responsabilidade das autoridades locais. Deveriam ter consertado antes, ou manter as lâmpadas sempre bem vivas. Falta de respeito com os visitantes...
Minha barriga ficou vazia e meu senso crítico aguçado. O que antes começou como uma indagação acabou se tornando uma revolta...Fiquei indignado. Não tinha, e ainda não tenho, a menor idéia de como que podem consertar o teto da cidade, mas sei que enquanto não consertarem, não ficaria por ali. "Esperarei até as próximas eleições, é fácil saber quando, basta observar o movimento das luzes da cidade, e então voltarei...espero que o novo representante dos donos da cidade saiba trocar as luzes do teto", pensei. Então, voltei pra montanha. As noites na montanha nunca são iguais.

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