Sentado desajustadamente em minha cadeira, com os pés apoiados sobre uma almofada que por sua vez está apoiada à poltrona, fixo meus olhos no monitor de 17’ que exibe um arquivo em branco no programa Microsoft Office Word 2007. Coço com as unhas a derme sobre o nariz bem a altura do osso nasal enquanto reflito sobre o que escrever e principalmente, o porquê escrever. Decido escrever um conto, e o porque de escrever um conto é, decididamente, pelo seu baixo nível de complexidade, o que me dá margem para escrever sobre qualquer asneira e, após feita a “ obra”, posso procurar lacunas das quais não conseguirei explicar e enfatizá-las-ei, tornando-as palavras-chave para a produção e reflexão de novos pensamentos e idéias. Mas ainda assim, não pensei a respeito do porquê de escrever.
Como uma auto-analise psicológica, tomo como imagem o personagem “ Hannibal Lecter”, ou simplesmente “ Dr. Lecter”, do escritor norte-americano Thomas Harris, que teve seus livros adaptados para o cinema, dos quais tive contato primeiramente, e por isso, tomo a imagem de Anthony Hopkins interpretando o célebre psiquiatra psicopata, que agora está incorporado à imagem que criei para representar meu psiquiatra interno. Ele diz para mim, que agora estou sentado em um divã imaginário:
- Porque você escreve?
Antes mesmo de responder, Dr. Lecter prossegue:
- Busca expressar algo? O que seria? Ou será que deseja meramente demonstrar seu intelecto às pessoas? Vaidade ou orgulho? Ambos? Seja modesto e responda que escreve para se desenvolver, que ainda é fraco, que quer crescer etc.
Não consigo responder as questões, oscilo entre uma resposta e outra, uma opção é mais viável que a outra, sou um crápula, um monstro? Sou inocente e bom? Quero mesmo mudar o mundo? Quero fama, dinheiro? Dúvidas, vidudas e dasvidu. São tantas realidades, ilusões, mentiras. Cerro as pálpebras e volto meus olhos para a única resposta que me vem a mente, que é a vil ligação de realidade, ilusão e mentira. Ilusão é uma mentira bem verdadeira, uma verdade não desmentida, é verdadeiramente acreditar na mentira. Crer, essa é palavra que pode explicar o porquê de escrever. Abro os olhos em direção ao Dr. Lecter e o vejo com sua focinheira: está ficando quente.
Incrédulo, mal pisco os meus olhos e me vejo por detrás de um vidro, preso dentro de uma cela isolada. Ouço a voz grossa de um homem murmurando que nessa cela está preso um canibal. Sei que o psiquiatra canibal precisa ficar preso, isolado, para não fazer perguntas e não levantar duvida aos que estão mais fracos que ele e não comer os que estão mais fortes. É um devorador de personalidades interessantes ou simplesmente de desonestos e os faz por vingança ou por prazer, talvez para salvar a própria pele. Não sou especial e tenho consciência de que todos nós temos um Dr. Lecter em nosso manicômio consciente. A vida é um hospício e sem a autoconsciência, estamos sujeitos a diagnósticos errôneos de médicos incompetentes, quiçá, negligentes.
Sentado agora em minha confortável poltrona com o teclado sobre minhas pernas, corrijo os herros hortográficos de meu pequeno texto, rindo dos devaneios e da forma com a qual o escrevi. Percebo que no final coloquei letras demais em certas palavras. É um defeito escrever demais quando é desnecessário. Enxergo uma lacuna da qual poderei fazer alguma analogia. Concluo o texto com a idéia de que escrever é necessário para melhor simbolizar determinadas idéias e desejos, ou seja, descrever mais detalhadamente determinados sentimentos para assim facilitar a compreensão do interlocutor, envolvendo sentimentos como orgulho e vaidade, que fazem parte da natureza humana, da qual faço parte e, negá-las, é a real hipocrisia. Antes de parar de escrever, penso em qual será o título do texto, do qual nomeio de “A Fuga, o encontro e o retorno”, de acordo com a ordem dos parágrafos do texto.
P.S. Na verdade só escrevo porque gosto de escrever.
P.P.S. Embora minha vida escolar inteira fui uma negação em redação.