Adeiladinha estava deitada em sua branca rede rendada quando lhe deram a notícia de que seu gato,desaparecido há uma semana,foraencontrado.A pobre mulher de oitenta e seis anos se iluminou, e na mesma hora, levantou-se revigorada;deixando a melancolia na rede,ainda em movimento.
- Teteu ! Ó Virgem Nossa Senhora, graças a Deus! Graças a São Longuinho! Vem dona Maria,me ajuda a dar treze pulinhos.
- Deixe de lado os pulinhos e vamos pegar seu gatinho de volta! Não faça muito estardalhaço,você ainda está ruim das costas, e depois quem tem que aguentar você gemendo de madrugada sou eu! Disse sorrindo Dona Maria,colega de quarto de Adeiladinha,que veio junto com a enfermeira dar a alegre notícia.
- Saiba você, minha cara, que fui uma importante ginasta na minha terra! Não me subestime!
- Ah,não vai começar a falar da Polônia agora não,não é? Vai buscar seu gato,logo!
- Tô indo,tô indo.E foi,saiu da varanda andando a passos curtos,arrastando seus pequenos pezinhos presos as suas perninhas miúdas,cheias de varizes, junto com seu corpinho curvado,se apoiando,com incrível destreza,ao andador.Chegou numa salinha,uma espécie de recepção,na entrada da casa de repouso onde junto de Rosa,uma dedicada e delicada médica,estava um adolescente,com porte de homem,de mãos dadas à uma menininha branquinha com duas marias chiquinhas.A menina tinha nos braços Teteu,o gato fugido.
- Ô nhenhê da mamãe! Vem cá vem,lindinho! Falava tentando imitar uma voz de criança,ou de bebê,enquanto esticava os dois braços para o gato ainda acomodado em uma toalha braços da menina.
- A Babinha,minha filha,achou o gato no quintal enquanto brincava com a babá.O gato da senhora estava tomando um banho de sol,com muita fome, mas já o alimentamos.Moramos aqui ao lado,naquela casa amarela,de telhas brancas - disse isso apontando para a parede,na direção em que a casa estava.
- Nossa! Tão moço e já tem filha?
- É ,casei um pouco cedo.Olha, vimos o cartaz no poste,em frente a padaria; nos desculpe,mas não vamos aceitar a recompensa.
- Ah! Aceitem,por favor.É pouco, eu sei,mas é o mínimo que posso fazer.Todo trabalho deve ser recompensado.Muito obrigada.Vem Teteu,vem mamãe!
O gato ronronava nos braços da garota.
- Não,pegue esse dinheiro para comprar ração.Esse gato come muito - sorriu e continuou - Filha,entregue o gato pra Senhora...
- Vem Teteu !
A menininha ,pedindo com sua mão pequenina para que o pai abaixasse os ouvidos para dizer algo em particular a ele.O pai entendendo o sinal da filha, se abaixou e a menina disse:
- Mas pai,ele não quer ir...
- A filha,já conversamos sobre isso,dê logo...
- Papai! Ele está mais feliz aqui...
- Bárbara ! Entregue logo o gato.A Senhora está esperando.Ande,agora!
A menininha apertou o gato,que a olhou ternamente,e disse a ele:
- Você é meu...
- Bárbara Silva Pinto ! Entregue o gato!
A velhinha já havia desistido de esticar os braços,segurava agora o andador e olhava triste e ao mesmo tempo cheia de carinho para a garota.O pai tomou o gato das mãos da menina e o levantou a certa altura pelas patas dianteiras,fazendo a menina esticar os bracinhos para o alto tentando pegar de volta seu tesouro achado no jardim.O pai levantou o gato mais alto ainda,dizendo:
- Chega de manha! Já conversamos! Tome o gato,senhora. - Ao aumentar o tom da voz,o gato ,já assustado,tentou se soltar das mãos do pai,saltando sobre seus braços e fincando as unhas nos ombros do homem,que urrou,cheio de dor gritando:
- Olha o que você fez garota !
Antes de dizer isso a garota já chorava desesperadamente.Choro que,desde o momento em que pai e filha viram o cartaz do fugitivo,preso ao poste,estava guardado dentro de seu coraçãozinho pueril.O pai ao ver a menininha chorando se acalmou.Toda a fúria exauriu dando lugar a um comportamento dócil e protetor. Abraçou a filha e disse:
- Desculpa filhinha,desculpa...Eu compro um bichinho pra você,juro.Não chore...esse bichinho é dessa senhora,não vê?Vamos devolvê-lo e depois,quando der,compro outro pra você...
- Ele te machucou por minha causa! Agora você me odeia! Ele me odeia também !
A garota,em crise,chorava sem parar culpando-se.Nesta hora, enfermeiras,médicas e pacientes estavam na recepção.Alguns assistindo uma cena que em outros tempos fazia parte de suas vidas e agora não passava de uma mera lembrança,ou nada.Muitos idosos começaram a chorar.Homens,lembrando de suas filhas,suas princesinhas.Mulheres,lembrando de seus pais,severos e carinhosos,sempre zelosos.
- Eu não te odeio amor.Tudo bem filha,papai tá aqui,tudo bem...Vamos embora.
E saíram sem se despedir de ninguém.Adeiladinha, estava comovida ao ver,depois de onze anos morando ali,vendo raramente sua família,uma cena da qual nunca pensou que fosse sentir falta de assistir: o pranto de uma criança.
- Rosa,por favor.
- Sim, Dona Adeiladinha?
- Peça ao Sebastião ou ao Chico, para pegar o Teteu e levar à casa desses dois.
- Que atitude bonita dona Adeiladinha!...
- Não,não é nada bonita...
- Como não?
- Com esse gato aqui,vou lembrar sempre do choro da garota.Choro que reflete o sentimento de ineficiência em uma garota tão nova. Não quero ter parte na primeira decepção,após a primeira perda...
10/06/09