Folk-lore Nacional - Parte 1

Ricardo nunca achou que fosse sentir tanta falta do Brasil, principalmente de sua cidadezinha, uma capital no interior do país. Depois de seis anos morando em Amsterdã, voltou há duas semanas para sua cidade natal, esperando rever os amigos, para contar suas loucas aventuras no estrangeiro e, talvez, reviver os tempos de adolescente, com eles. Antes de sua partida para a Europa, todos os dias saíam de madrugada andando pelas ruas vazias e silenciosas enquanto bebiam de tudo e brincavam das coisas mais absurdas, pois tudo valia, era sua diversão. Empolgados por estarem em grupo e ainda anestesiados pelo álcool, vadiavam a noite toda sem alguma preocupação.
-Bons tempos...- dizia sempre a si mesmo. Com o passar dos anos, a maioria da turma foi se cansando; uns por arranjarem outros amigos, outros por estarem preocupados com a universidade. Mas Ricardo não perdia tempo, assim que algum amigo começava a se afastar, ele por ser carismático, já agregava outro à turma, recrutando amigos em shows e boates das quais passou a frequentar. Certa vez ouviu histórias muito doidas a respeito da vida em Amsterdã e resolveu ir conferir, afinal já estava mesmo cansado de tudo na sua cidade, que acabou se tornando monótona e limitada, porém, após seis anos morando na europa, havia se cansado da vida no estrangeiro,e passou a retomar suas antigas amizades, do tempo da adolescência,pela internet e ainda conseguiu outras novas, entre elas uma moça da qual achou muito interessante. Chegou preparado para o primeiro encontro com Helena, a moça que conheceu pela internet, e super empolgado para contar pessoalmente a todos suas mirabolantes histórias – das quais tem muito orgulho. Estava mais ansioso pelo reencontro com eles do que pelo infortuno reencontro com a mãe e o padrasto. Este, um palerma, porém rico ( viúvo, herdou uma fortuna de sua falecida esposa, junto com sete filhas, que a mãe de Ricardo cuida agora) foi quem bancou, com muita insistência da parte de Ricardo, os gastos de seis anos na Europa. A mãe de Ricardo, na época em que o padrasto anunciou à família que arcaria com todos as despesas, ficou contente em ter um marido tão nobre e zeloso, afinal seu marido custearia os estudos do filho na Europa.O Padrasto, preocupado com o relacionamento de suas filhas, algumas já moças, com playboy Ricardo, decidiu o despachar o quanto antes, para o mais longe possível. A mãe de Ricardo tinha fama de beata e tonta. Tonta do ponto de vista dele (e de todo mundo), inocente e pura do ponto de vista do padrasto. Desde antes de seu nascimento, a mulher dedicava-se inteiramente à religião, é uma beata fervorosa que passa todos os dias, o dia todo, na igreja, dedicando-se não somente às suas orações como também na manutenção, tanto da igreja quanto da casa paroquial. Foi lá que conheceu o palerma, um amigo do padre. Padre do qual Ricardo detesta profundamente, por ser um enxerido, sempre dando palpites sobre sua vida. Antes do casamento com o palerma, sua mãe ficava na igreja até tarde da noite, era a primeira a chegar e a última a sair. Agora, leva as enteadas mais novas para uma creche enquanto passa o dia todo na igreja, cuidando da limpeza e outras coisas. As mais velhas passam o dia estudando na casa de amigos.
Ricardo, já desacostumado com os points de sua cidade, deixou que os amigos escolhessem o local do encontro, só sugerindo ser um local badalado e com bebidas.
Escolheram uma casa de shows, em um bairro nobre da cidade – há seis anos não era tão nobre assim, tornou-se nobre com a construção de um parque medíocre, que valorizara os imóveis da redondeza –, não muito longe da casa do padrasto.Chegou ao aeroporto, comprou uns cigarros e um isqueiro e ,desanimado, foi procurar pela família que o esperava.Almoçou com a eles, falou pouco e discutiu com as filhas do padrasto, exceto uma, a mais velha.A noite, saiu cedo de casa, resolvendo jantar em algum restaurante, vadiar um pouco e mais tarde ir se encontrar com eles. Por hábito, já que raramente dirigia em Amsterdã, e tomado pela nostalgia, dos tempos em que fazia suas andanças a pé pelas ruas vazias da pacata capital, decidiu seguir a pé. Entrou em um restaurante tradicional da terra e, mesmo tocando sertanejo, som que sempre odiou, permaneceu lá. Tinha saudades até do sertanejo... Depois de se fartar com o arroz com pequi, saiu do restaurante, andando a esmo, indo parar em uma pracinha onde estava montada uma feira, tradicional daquele bairro, onde se vendia desde comida à roupas e bijuterias. Sentou um pouco em um banco e, em menos de cinco minutos, foi abordado por três moleques, pedindo dinheiro para comer. Primeiro, veio somente um, que parecia ser o mais velho. Sendo negado o pedido, foi embora resmungando. Depois veio um garoto pequeno, todo sujo e rasgado, de mãos dadas com uma menina, pouco mais velha, na mesma situação,fizeram a mesma súplica e saíram contrariados e resmungando. Passaram-se quinze minutos e voltaram os três junto com outro, mais velho que o primeiro. A todos, veemente, Ricardo respondeu que não tinha dinheiro alí com ele. Perguntaram então se tinha um cigarro, disse que tinha sim, mas não ia dar; se quisessem fumar, que trabalhassem para comprar um cigarro. Levantou-se do banco, virando as costas para eles, por pirraça, e saiu dali, enquanto era amaldiçoado pela garota e jurado de morte pelos garotos, pelas costas. Acendeu um cigarro e prosseguiu andando por uma das estreitas ruas adjacentes, enquanto ria da cara de raiva dos moleques, relembrando, enquanto dava uma longa tragada, do olhar de ódio ao burguês que lhe negou um cigarro. Nisto, cogitou a hipótese de que eles pudessem se reunir para seguí-lo, descontando o desaforo e ganhando uns cigarros, enquanto ele vagava por uma dessas vielas sem iluminação e sem gente. Pensando nisso, soltou uma gargalhada, dizendo:
- Que viessem!Ah!, Mas que viessem! Molecada folgada, deste País nojento!
Apagou o cigarro, e brincava, dando murros e chutes no ar, simulando ou se aquecendo para a iminente batalha. Só parou de esmurrar o vento quanto sentiu e logo depois ouviu um toque, saindo do seu bolso. Tirou o celular do bolso rindo de si mesmo, lembrando que sempre que o ligam é a mesma coisa, depois de muito tempo vibrando, se assusta, tentando se lembrar o que poderia ser aquilo, se lembrando logo depois de que se trata de seu celular. O mesmo acontece quando acorda, nunca sabe onde está nos primeiros dez segundos após abrir os olhos. Às vezes se assusta com o que vê,não se lembrando como fora parar ali. Como poucas pessoas no Brasil têm seu numero, suspeitou logo que era Helena, telefonando para desmarcar ou para confirmar o encontro. Para sua sorte, era confirmando.
- Claro gata. Vou sim... Estou cheio de coisas para te mostrar...
Ela desligou e disse que apareceria antes das onze, era sexta feira e tinha o hábito de ir à Igreja com os pais. Ainda eram nove horas, resolveu sair andando, chegando à outra praça, menor que a outra, mais silenciosa e mais aconchegante - dois adjetivos que eram sinônimos na vida de Ricardo-, onde poucas pessoas estavam, na maioria delas adolescentes, um com violão e os outros bebendo e cantando (ou cacarejando) uma música em inglês.
-Ah! Bons tempos...
Procurou nos postes alguma placa de endereço, logo achando, não conheceu a praça, mas conheceu o bairro. Sabia que a casa de shows era nesse bairro, mas não tinha a menor idéia de como chegar. Acendeu outro cigarro enquanto caminhava rumo à roda, agrupada num cantinho da praça, para perguntar onde fica a casa de shows. Um rapaz que estava de pé, meio cansado de ficar ali, explicou desanimado, que não estava muito longe, mostrando vários caminhos, mas dizendo que o mais rápido era pelas vielas. Ricardo agradeceu e seguiu na direção das vielas, estava sem pressa, mas achou que por lá seria mais tranqüilo. Fazia um pouco de frio, e Ricardo reclamava para si:
- Impressionante! - fechando a jaqueta - Já havia me esquecido de como é o clima desta cidade; de dia um calor infernal, à noite um frio desagradável, pois chega de repente. Adoro frio, quando chega aos poucos, devagar. O que mais gostava no frio era que, se está frio, podia se aquecer, ao contrário do calor, que só enche o saco... Mas, quente ou fria, sempre gostou muito da noite, de vadiar à noite, das farras da noite, da diversão depressiva da noite...
Em Amsterdã, na maioria das noites, passava sozinho, vadiando pela cidade. Não tinha nenhum amigo lá, só os colegas de farra, que conhecia em um dia e já os desconhecia no outro. Muitas vezes dormia na rua, só, sendo acordado por um policial, logo ao amanhecer. Podia fazer isso aqui, hoje, se não fosse pela criminalidade, em países como o Brasil, seria assinar sua sentença de morte, dormir ao relento. Lembrou-se dos moleques da praça; podiam estar o seguindo, esperando uma oportunidade em que ele estivesse vulnerável, para roubar seu dinheiro e seus cigarros enquanto dormia despreocupado e aquecido pelo álcool. Esfregando as mãos na jaqueta, concluiu pensando que também poderiam a roubar, sua linda jaqueta que comprou em Amsterdã, tinha boas lembranças com ela... Fiel companheira. Uma vez, escondeu-se em uma lata de lixo, para dormir, pois tinham muitos policias na rua naquela noite. Começou a rir, imaginando fazer o mesmo aqui, porém aqui se esconderia de trombadinhas, não de policiais. Enfiou a mão no bolso e tirou seu isqueiro e um maço de cigarros, a fim de acender outro cigarro. Parou de rir,após tentar inúmeras vezes acender o cigarro, sem obter sucesso.Sobressaltou-se ao ver que a chama movia-se agitada, como se um furação estivesse ali. Tentou outras duas vezes, a chama não parava quieta. Não conseguindo acender o cigarro, manteve o isqueiro ligado e ficou admirando a impaciência da chama. Era um fato curioso, afinal não soprava nenhuma brisa, e mesmo se soprasse ele tomava todo o cuidado para protegê-la do vento. Ainda sim, mesmo protegida por suas mãos, permanecia agitada. Olhou em volta, tudo estava imóvel.
- Isqueiro vagabundo...Essas coisas do Brasil, de camelôs...
Começou a ventar, a principio bem de leve, uma brisa, depois bem forte. O vento parecia gemer,ressoando pelas paredes lisas da viela. Ricardo sentiu-se incomodado e, por impulso, pegou um cigarro e o acendeu, normalmente. Depois que já estava tragando, lembrou-se do isqueiro; tornou a tirá-lo do bolso e o acendeu. Ele acendia normalmente. Inquieto, procurou uma placa para consultar sua localização. Em vão, não havia nenhuma por ali. Quando olhou ao redor, procurando uma placa, percebeu que já não conhecia o lugar em que estava. Não fazia a menor idéia de como viera parar ali. Mesmo nervoso, resolveu tirar sarro de si mesmo:
-Ah pronto! Bem vindo ao Suriname! Vou continuar em frente, daqui a pouco chego ao Caribe!
E chegando ao caribe ou não, continuou em frente. Deu com outra viela, mais escura, estreita e silenciosa. Já não haviam árvores por detrás dos muros, com isso seus olhos se encontravam diretamente com o céu estrelado; pintura bela, que seus olhos contemplavam inevitávelmente maravilhados. Raramente perdia tempo admirando o céu,ainda mais o noturno, coberto por milhões de estrelas, que antes estavam ofuscadas pela luz da cidade e que, naquele labirinto escuro, se mostravam sem timidez, longe da vista do resto do mundo. Fingindo, ou não, pra si mesmo um fraco bom humor, exclamou:
- Nossa, parece planetário! Cadê a lua? Disse isso indignado, olhando para o alto e girando o corpo cento e oitenta graus, passando os olhos por todo o céu. A encontrou logo atrás de si, linda. Lua cheia, o céu estava todo iluminado. Demorou um tempo namorando a lua, até que baixou os olhos para a rua escura, já mais calmo e com ânimo para prosseguir. Em contradição a luz da lua, a escuridão da rua, Só agora reparando que na rua praticamente não havia luz; o que iluminava aquele lugar era na verdade a luz da lua.
- Magnífica! Vou tirar uma foto! Preciso tirar uma foto disso tudo,mostrarei para Helena, ela vai adorar...Mulheres adoram isso... – Estava maravilhado pois raramente via a lua cheia tão espaçosa no céu. O que conhecia da lua eram imagens vistas na tevê ou em revistas, internet etc. Lembrou-se das poucas vezes em que viu a lua, assim, a céu aberto, tão majestosa: na ultima vez, a única que se lembrou nitidamente, estava em casa e quando acordou, estava na rua, cheirando à álcool.Riu-se de suas peripécias.Mas já estava virando regra naquela noite; rir de si e depois enfurecer-se.O celular não ligava, parecia estar quebrado.
- Lixo, merda! E se me ligarem? Caralho!
Esmurrou o celular, gritou com ele e, num ímpeto animal, o arremessou contra um muro velho, despedaçando-o. Arrependido, correu para junto dos pedaços, resmungando:
-Ah merda!...
O muro estava intacto, não sofrera nenhum arranhão. Sentiu um cheiro ruim, só agora havia sentido. Cheiro de comida,” Cheiro de almoço”, como disse.Olhou para baixo e viu, no chão, uma fileira de sacos de lixo,que se estendia pela rua toda.Havia se ajoelhado sobre o lixo.
- Caralho! Vou embora daqui! Volto para aquela praça, peço o celular de um daqueles caras e chamo um taxi... Chega de aventura!
Acendeu outro cigarro e andava, a passos largos, de volta pelo caminho em que veio. Chegou a um cruzamento.
- Porra! Não me lembro de ter passado por aqui.Não tinha nenhum cruzamento...
Escolheu continuar indo reto. Olhava para o canto das paredes, havia lixo esparramado. Alguns sacos estavam abertos, ratos e baratas que se divertiam sobre os restos de comida - só agora, com medo, os enxergava.Seus sentidos tornaram-se mais aguçados, qualque som atraía sua atenção. Começou a ter ânsia, acendeu outro cigarro mesmo com o outro queimado ainda pela metade. Chegou a outro cruzamento.
- Não me lembro de ter passado por dois cruzamentos...
E voltou, chegando de novo ao cruzamento anterior, agora tomando o caminho da direita. Ainda havia lixo. Só se ouvia o som dos insetos e o caminhar dos ratos, que o seguiam. Cercado por muros. Nenhuma janela, nenhuma porta. Nenhum poste ou placa de com endereço.
- Ai! Quando vim havia alguns postes! Errei de novo o caminho!
Quando se virou, assustou-se, dando um pulo para trás: havia um vulto enorme, o seguindo a certa distância, em silêncio. Viu, outro vulto, quadrúpede, saindo da viela por onde tinha saído.
- Meu Deus! Puta que pariu!

O vulto bípede começou a remexer o lixo, procurando alguma sobra. O outro se aproximou devagar, querendo um fresco, inteiro e vivo. Pareciam cachorros enormes. Sem opções, resolveu correr dos vultos, talvez não o alcançassem. No silêncio daquela noite, os passos soavam como pancadas em tambores. Parecia haver um pelotão marchando. Os animais logo o ouviram e desataram a correr atrás do homem. Por mais que Ricardo corria, não chegava a nenhum cruzamento onde pudesse despistar seus perseguidores. Aquela rua parecia não ter fim e, olhando para trás, viu os animais se aproximarem cada vez mais.Cansado de correr, teve que parar. No lixo, viu uma vassoura jogada. Apanhou uma pedra no chão e arremessou, acertando em cheio a cara do animal que vinha na frente. Este parou e ficou chorando por um tempo.O outro permaneceu firme, ainda vindo em sua direção.Ricardo apanhou a vassoura e quebrou sua ponta, transformando-a em uma lança e permanceu imóvel, esperando o ataque do inimigo.Não restava outra opção, teria de lutar.Eram cachorros,afinal.O cão rosnava, parado de frente ao homem, esperando também o ataque dele.Um esperava a breja do outro. O outro cão, já recuperado da pancada, vinha a todo vapor, quase voando encima de Ricardo. Pulou, tentando morder o pescoço do homem. Ricardo defendeu-se usando o braço esquerdo, onde o cão cravou os dentes na carne, que o deixou com mais fúria; agora o cão sentia prazer, parecia sorrir. O outro permanecia parado, fitando com seus olhos verdes o belo espetáculo, aguardando a vingança do companheiro. As unhas do cão esquartejavam Ricardo. Urrando de dor, Ricardo levantou com toda sua força o cão, ainda com as presas na carne de do seu braço, pegou o cabo e o cravou sem seu peito, que perdendo rapidamente as forças o soltou, cambaleando e logo caindo no chão. O outro, em fúria, jogou-se sobre Ricardo, que dessa vez teve que usar os dois braços, cruzando-os e,ao receber o impacto do peso do cão caindo sobre ele,perdeu o equilíbrio,caindo de costas no chão,ainda segurando o cão com os braços.O cão tinha unhas enormes, maiores que as do anterior,afiadas como navalhas. Olhou dentro dos olhos do animal, que parecia estar adorando aquilo, e disse:
- Saí demônio ! Cão dos infernos!
Enquanto tentava empurrar o cão e tirá-lo de cima de si, viu no céu, em um rápido relance,bem acima de sua cabeça, a lua, que o encarava; a beleza da lua contrastava com aquela terrível cena, constratava com o cadáver ao lado, constratava com hora camisa branca empapada de sangue, com a manga rasgada e seu braço, em carne viva. Sua jaqueta já estava destruída. Com a lua bem acima de si, assustou-se ao ver seu braço em carne viva. Sentiu que iria morrer, precisava fazer algo o quanto antes. Mas que diabo de fim? Morrer pra um cachorro, numa viela? Pensou. Tinha ódio, mas não de seu assassino, e sim de como iria morrer. Seu coração batia acelerado, seu corpo enrijecia. O sangue em seu braço despertara seus instintos; com uma força descomunal, despregou o cão de seus braços e o levantou,segurando pelo pescoço,arremessando-o contra a parede.Andou até o outro cão, já morto, e retirou sua arma,cravada no animal e, em fúria,fulminou o animal caído com pancadas,até o cabo de vassoura quebrar. Olhou com prazer o cadáver do cão, que era o maior cão que já vira, e teve até vontade de estraçalhá-lo todo, usando suas próprias unhas, só por prazer. Chutou a cabeça do animal, que mantinha a boca semi-aberta, e disse:
- Vá pro inferno filho duma puta descabaçada! Ahaha!- Cuspiu no animal que ainda dava pequenos sinais de vida. Chutou a cabeça do outro animal, já morto e segurando o braço ferido, seguiu andando, de volta pelo caminho em que veio.Logo que se virou de costas,tomando o caminho por onde os animais vieram, ouviu uma voz rouca que disse ,agonizando:
- Você não sabe o que é o inferno, não sabe...
Virou-se e deu com dois cadáveres humanos. Um deles, em pele e ossos.O outro, ainda com algumas partes em carne. Neste, via-se nitidamente os seios.
- Meu Deus!...
Enfiou a mão no bolso, procurando seu maço de cigarros, não os encontrando; haviam sido estraçalhados junto com a jaqueta. Seu braço doía muito ainda, era impossível ele ficar vagando a noite toda por aquele labirinto, naquelas condições. Viu um espaço, entre o lixo, onde poderia se deitar e esperar o amanhecer. Voltou a fitar os cadáveres, agora cães de novo. Ao sentar-se perto do muro, sob a penumbra do muro, olhou para seu braço, ainda dolorido e assustou-se novamente: o braço estava curado, sem nenhuma marca de luta, sem nenhum arranhão. Seu corpo, esquartejado, doía muito, mas não havia sangue ou qualquer marca, a não ser as roupas rasgadas. Sentia uma profunda dor, como nunca sentiu. E assim conseguiu dormir, em meio ao lixo, chorando de dor. Acordou logo cedo, com o barulho irritante de um caminhão de lixo que passava pela rua.


15/06/09

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