O Comedor de Americanos
Sempre fui do tipo " certinho", metido a perfeccionista (como minha ex-namorada dizia), metido à psicólogo(sei que "Fróidi" dizia que o filho homem sente tesão pela mãe),metido à poeta, de versos livres, como disse uma vez uma séria e intelectual professora do ensino médio ao ler um versinho que escrevi no quadro;satirizando um professor anão, careca, gay e taradão. Aprendi a tocar “Come as You are " na quinta série, com um daqueles garotos que em dia de festas levam o violão para escola (pra chamar à atenção e pegar menininhas), aprendi a desenhar, colocando uma folha em branco por cima de um desenho, e assim copiando-o perfeitamente; era o artista da turma.Muitas vezes desenhei um " Goku" ou um " Darth Vader", coisas de garoto em início de puberdade.Fazia aulas de basquete para orgulhar meu pai e para satisfazer a vontade de todos,principalmente de minha mãe - no início da puberdade eu era alto, depois todos os outros "anões" me superaram.Enfim, tenho múltiplos talentos.
Hoje cedo estava indo ao cursinho pré-vestibular, que faço há 5 anos ( tanto para satisfazer meus pais quanto para evitar infortúnios,como trabalhar...), quando encontrei um amigo, parado no meio da rua, babando.Perguntei ao demente:
- Beleza cara? Ficou bobo agora? haha! - Dei um tapinha nas costas dele. Volveu o rosto e retrucou:
- Rapaz, você não vai acreditar no que eu vi...
- O que? O espírito do Michael Jackson dançando o Moonwalker? A Hebe fazendo um stripe-tease na praça cívica?
- Melhor! Um Americano gostosão!
- Caralho ein!... Não sabia que era fresco...
- Que fresco o que rapaz! É quentinho e delicioso! Dei uma mordida nele e quase gozei...
- Cara, você tá falando de um salgado é? Só pode...É daquela padaria em frente? Sem esperar a resposta, atravessei a rua e entrei na padaria " Nastácia&Jurema Quitutes", indo direto ao efeito estufa local da padaria. Avistei aqueles Quibes, pretos e sebosos, as coxinhas (xodós de garotos e policiais militares), presentes também o " Pastelão", que não tem nada a ver com um pastel, a torta de frango, o pão de queijo, o Rizzoli e ao lado, o americano.Um homem gordo e negro com avental branco e toquinha,que não parecia se chamar Nastácia nem Jurema, disse por detrás do balcão:
- Qual?
- Aquele Americano, é feito do que?
- Massa, mussarela, salsicha e o molho especial da casa. Quer este? Pegando com uma pinça de padaria (catacrese), e apontando com a cabeça para uma caixa de papel de guardanapos (catacrese?).
- Catchup, mostarda, maionese?
- Não, valeu, não gosto de condimentos. Fui ao caixa e paguei os um e cinqüenta e sentei num banco redondo enquanto dava uma mordida. Era muito gostoso mesmo, mas não cheguei a gozar.
Estava levantando do banco quando vi uma menina comendo uma torta de frango. Ela mordia graciosamente, pedacinho por pedacinho mastigando, e vez ou outra, limpando o canto da boca com a língua... Não resisti a tal encanto e me aproximei, com a maior lábia possível:
- Ei, tá gostosa a torta?
- Ótima! Fazendo sinal de positivo.
- Acho que vou comprar uma... A garota fingiu que não ouviu, só sorriu, querendo ser educada, para levantar meu ego. Voltei ao balcão e disse ao homem de avental:
- Uma torta de frango, por favor.
- Catchup? Mostarda? Maionese?
- Não gosto de condimentos... O homem me olhou com desprezo, depois sorriu maliciosamente. Quando voltei ao lugar em que estava, a garota já estava de saída. Uma pena, pois queria dizer que a torta estava realmente boa. Terminei de comer, limpei a boca e joguei o guardanapo na lixeira. Tirei meu dinheiro da meia e fui ao caixa pagar o lanche.
- Um e cinqüenta, obrigada. Só agora reparei na “caixeira"; era uma mulher miúda, jeito de burra, porém prepotente, sabia lidar com dinheiro, deve ter feito administração de empresa em alguma faculdade particular, e tinha uma aliança no dedo anular (é anular mesmo?), da mão direita. Devia ser filha da Jurema e sobrinha da Nastácia, ou vice-versa. Devia também ser namorada do brutamonte de avental, ou senão nora da Nastácia, sendo o negão filho de uma delas, quem sabe. Estava distraído nisso quando uma gorda de barriga de fora e calça jeans apertada entrou, falando alto a uma magrela de salto alto, estereotipada como "perua". Em minha opinião, muito mal vestida e cafona! A gorda dizia:
- Misericórdia mais você tem que ver o tanto que é bom o quibe daqui menina você vai adorar é tão gostoso tem recheio de catupiry delícia muito bom meus filhos adoram o Arnaldo gosta de comer tomando cerveja você tem que ver que homem folgado passa o domingo todo sentado no sofá só comendo isso e vendo futebol que besta agora que tá velho perdeu a força se é que você me entende... (falava assim mesmo, sem vírgulas). A outra, achando graça e cruzando os braços disse bem agudo:
- Aneím!
- Nem te conto!
- Benza Deus! Vem, come um quibe aí pra você ver... Delícia! (falou mais pausadamente, pois ofegava, tinha o rosto vermelho e as veias saltavam, parecia ter um derrame ou infartar a qualquer instante, enquanto deliciava-se com o quibe). A gorda comia com tanta vontade e prazer, a magrela com tanta vontade e surpresa, que decidi comprar um quibe.
- Um quibe, por favor. A gorda ao ouvir isso, disse de boca cheia apontando o indicador ao homem de avental:
- Epa,epa! Todos os quibes daí são pra mim, já te disse... Vamos fazer uma reunião em casa, preciso deles! O homem de avental, se sentindo um quibe, importante e desejado, respondeu meio encabulado e em tom apaziguador:
- Tudo bem, estamos fazendo uma fornada só pra senhora, esses que estão na estufa são para vender aqui mesmo.
-Ah! Então tá bom! O homem de avental me entregou o quibe, todo cheio de si, e começou a papear com as mulheres, sobre como melhor se faz um quibe cru; muito azeite ou com muito limão? Comi o quibe do homem, já de estomago cheio, mas com um grande prazer; estava divino! Limpei os lábios cheios de catupiry e me levantei, soltando um discreto arroto. Ao passar perto da gorda, já no caixa, soltei um peido. Do ponto em que estava, pude ver que meu amigo ainda estava na porta da padaria, agora encostado na parede, ligando para alguém. Ao voltar os olhos para dentro da padaria, vi o homem de avental despejando uma bandeja de coxinhas e outra de rizzolis dentro da estufa. Deviam estar deliciosos, afinal ainda eram novos. Uma menininha entrou com o pai e pediu uma “cocinha”. O pai, um belo quibe.
- E ai caboclo veio! Tranqüilo? Como estão as coisas? E a vovó? Perguntou o pai da menininha ao homem de avental.
- Tá ótima, já se recuperou bem. Sabe como é, depois da morte da Tia Jurema, ela ficou em choque. Esclerose sabe...
- Ah! Sei como é... Sempre que visitava meu pai no asilo, era desse jeito, não parava de falar de gente que já morreu... Mas, deixa pra lá! Quando “casamos"?
- Lucielle quer em dezembro, né amor? A mulher do caixa respondeu com um sorriso e fazendo biquinho com a boca, parecia ser um beijo. Sorri de satisfação, afinal, minhas deduções estavam corretissímas,nunca errei!
- Então vamos ter festança ein? Abraços, seu Vila-Nova vai perder de novo... haha!
Assisti a tudo calado, enquanto esperava para ser atendido. Pedi uma coxinha.
- Catchup? Mostarda? Maionese?
- Não, não gosto de condimentos.
Terminei de comer, já com dor na barriga. Paguei tudo certinho e saí da padaria. Lembrei que tinha que ir ao cursinho, tomei a calçada do outro lado da rua e fui.Meu amigo já não estava lá.Ao andar pelo sol quente, sentia uma dor profunda,mas uma tremenda satisfação.
Ao final do dia, já de noitinha, voltava pra casa.Havia passado o dia todo com dor de estômago e já estava arrependido da "comilança". Entrei numa farmácia para comprar um remédio para dor de estômago. Enquanto esperava na fila do caixa, vi um homem que me chamou atenção, por ser muito branquelo com um chapeuzinho de pescador (catacrese!) e uma camisa colorida, que estava na minha frente, com um pacote de camisinhas na mão. A mocinha do caixa, sempre educada, perguntou:
-Débito ou crédito?
-Oh! Crédito, por favor. Falou com um sotaque estranho, devia ser estrangeiro de férias, pensei. Mas que diabos um estrangeiro vê de bom aqui em Goiânia?Que ponto turístico internacionalmente conhecido nós temos aqui para passar as férias? Veio comprar quibes? Paguei meu remédio e saí da farmácia. No estacionamento, vi o gringo de novo, agarrando uma pessoa dentro do carro, enquanto tentava dar a partida. O conheci; meu amigo sorria de no banco do passageiro enquanto bebia uma garrafa de vodca. Maldita ambigüidade.
10/07/09