O tempo suja
Por favor, lavem as calçadas,
pra melhor dormirem os moribundos,
lavem as calçadas, para os vira-latas
dormirem após coçarem suas sarnas,
Lavem as calçadas, com muito sabão,
e enxáguem direitinho, sem falhas,
para as princesinhas não sujarem seus vestidos,
Suas saias, suas unhas e suas vidas,
Pra evitar que os rapazinhos sujem suas mãos,
Seus topetes ou cabelinhos lisos,
pra poupar a saúde das velhinhas,
esquecidas no sofá,
e também daquelas que nem tem sofá,
Pra não deixar o poodle da madame se sujar,
Pro livro do intelectual não engordurar,
Pro carro do solitário feliz não estragar,
Lavem as calçadas, lavem as bancos de praça,
Lavem os coretos, lavem as entradas,
Das casas de show, das bibliotecas, dos cinemas,
Dos Salões de beleza, dos playgrounds, das escolas,
Dos botecos,dos bares, das farmácias, das livrarias,
Lavem as arenas de debate, lavem todas as mesas
Sujas de tanta vaidade encadernada,
Lavem a música, de tanta publicidade barata,
Ensaboem as cabeças, infestadas de piolhos,
Peguem os filósofos e os ponham de molho,
Por favor, lavem as calçadas,
Cheias de craca e de restos de piche,
lavem as entradas dos puteiros,
lavem as mesas,
Repletas de garrafas cheias de solidão mascarada,
Lavem também as máscaras,já muito gastas,
Lavem os mercados,infestados de insatisfeitos,
Encerem a política, que já não brilha,
como deveria,
Ponham graxas em toda e qualquer máquina,
Limpem as janelas das casas populares e,
Principalmente, das Mansões confortáveis,
Lavem os quintáis das casas dos estudantes,
Ponham flores no escritório do homem,
Tirem a lenha da locomotiva da vida.
Mas comecem pelas calçadas, são prioridade;
É necessário dar conforto aos excluídos,
É necessário acomodar os incluídos,
E necessário encerar os já polidos,
É complicado tentar ser explícito.
3/7/09