Em uma terça feira quente, Roberta telefonava a todo o momento para seu melhor amigo, Otávio,que não a visitava há dois dias.Telefonava para a casa de Otávio, e ninguém antedia.O celular dele estava desligado.Roberta era uma garota calma, bondosa e delicada,admirara desde cedo a ousadia e a ambição de seu melhor amigo. Otávio vinha todos os dias conversar com a amiga,que também era sua melhor amiga desde a infância.Ambos cresceram juntos sendo confidentes um do outro e comendo os quitutes da mãe de Roberta.Otávio nunca deixou de ir um dia sequer à casa de Roberta,por isso,a moça encheu-se de dúvidas e começou a questionar:
- Será que ele se cansou de mim? Perguntou a si mesma em voz alta
- Todos se cansam de você, venha cá lavar os pratos, respondeu uma voz, vinda da cozinha.
Nem a gostosa sensação de sentir a água fria tocando sua pele , o que ela gostava tanto, fez sua mente se libertar da angústia e da dúvida. E a todo o momento, enquanto lavava os pratos, olhava para a porta da casa esperando que a campainha tocasse e fosse atendê-la, dando um fim a tudo isso. Tornou a ligar; ninguém atendeu.
- Ora garota, será que seu amigo não está de namoro com alguma menina? Disse com malícia uma comadre da mãe, que desde que entrou em casa para visitar a comadre estava ansiosa para contribuir com a inquietação da moça.
- Não pode ser... Não o Otávio, ele me contaria, com certeza, - Respondeu isso, meio perplexa.
Telefonou de novo,e de novo...Ninguém atendia.O celular ainda estava desligado.Tomou uma decisão:
- Mãe, posso pegar seu carro?
- Claro, mas devolva em duas horas, hoje tem feira, respondeu a mãe, meio receosa de sua atitude.No juízo da Mãe,Roberta era um pouco boba para dirigir sozinha.
Roberta raramente ia à casa de Otávio, afinal ele todos os dias ia à casa dela. Deu a partida no carro e, com um pouco de medo e começou a dirigir; era uma novidade sair de casa dirigindo ainda mais indo à casa de Otávio!
No longo percurso entre a casa dele e a dela, existem muitos cruzamentos e semáforos. A cada parada, Roberta pensava no que poderia ter feito ao amigo, que sumiu de sua casa (e de sua vida) sem dar nenhuma notícia: “devo ter maltratado ele”, “não gosta mais de ir à minha casa”,” deve estar enjoado de mim “," estamos sem assunto ", “ sou muito chata “ ; ou então culpando terceiros : “ ele pode ter se acidentado! “, “ batido o carro,sido atropelado ! “, “ uma carroça pode têr-lo atropelado ! “ ( falou isso porque nesse instante havia um carroceiro atrapalhando o trânsito ).Pensou em outras mil possibilidades relacionadas à acidentes,desde carroças a acidentes aéreos.Prefiro poupar palavras e para quem lê,poupo o saco.
- Céus! Exclamou em voz alta, chamando atenção de um velho que dirigia um dos carros que estavam ao lado.O velho assim como os outros motoristas,achavam engraçado ver a moça,ora resmungando ,ora perdida em seus devaneios - como achavam - no trânsito. Vendo que alguém a olhava,Roberta virou para o lado e deu de cara com o velho que dirigia o carro ao lado; como tudo naquele momento girava em torno de Otávio, lembrou-se imediatamente do pai de Otávio, o simpático Seu Zé Maria: “o pai dele pode estar doente”, “o pai dele pode ter morrido...”. Fez um sinal da cruz e exclamou em voz alta, assustada pelo rumo em que tomavam seus pensamentos:
- Credo!
O velho ao ouvir a moça que o fitava gritar credo e fazer o sinal da cruz, enquanto olhava para ele,virou o rosto,meio vexado, e fingiu mexer no celular.
Depois de quinze minutos, finalmente estava entrando no bairro de Otávio. Um bairro pacato, com ruas estreitas, com exceção da avenida principal, bem larga ,na qual todos as outras ruas se encontravam.A esse ponto , o nervosismo já havia tomado conta de Roberta,que não parava de ligar para o celular e para a casa de Otávio: “ Céus! “.
Roberta estava totalmente mergulhada num mar de pensamentos quando, no sentido contrário, um carro velho com um alto falante vinha correndo,quase descontrolado, na contra-mão,que por pouco e fazendo uma manobra,arriscadissima,se esquivou,evitando se chocar de frente com o carro de Roberta,que vinha em alta velocidade.Por reflexo, Roberta também se esquivou,mas pela inexperiencia no volante,perdeu o controle e foi parar encima de um canteiro.Viu que não estava em condições de dirigir,desligou o carro e antes de mergulhar de novo no mar de pensamentos, enfiou a cabeça para fora do carro e gritou:
- Barbeiro desgraçado! , respirou um pouco,tomou folêgo e voltou a mergulhar no tortuoso mar de pensametos confusos e sem nexo que sua cabeça havia se tornado;um mar tão agitado como sua realidade nos últimos vinte minutos e tão depressivo como sua vida,no últimos dois dias. Debrusou-se sobre o volante,apoiando-se com a testa ,e ficou olhando,sem ver,o chão do carro; tentava se acalmar ,mas seu coração batia acelerado.Murmurou para o pedal do acelerador:
- Que loucura, o que é que eu tenho na cabeça?...
Ergueu-se de novo e deu com uma imagem,bem comum naquele pacato bairro; em um banco, mais a frente,dois jovens namorados se beijavam,carinhosamente - mesmo depois de se assustarem com o quase-acidente,o que renderia muito assunto em suas respectivas casas.Roberta ficou fitando o jovem casal durante um tempo .Era bonito ver isso.Essa imagem, como uma luz,ofuscou todas as outras idéias ,dando ênfase a uma idéia que estava escondidinha, sem chamar muita atenção no meio da zona que estava sua mente;e tudo convergiu a um mesmo ponto: Ele está apaixonado.Então,uma outra idéia brotou na mente fértil de Roberta: “ Será que ele quer me evitar?Medo de me amar?...Não,não.Será que ele me ama mesmo?não pode ser...será que ele está com vergonha de me ver? Medo de minha reação? Medo de estragar uma amizade tão antiga...”. Sentiu as lágrimas escorrendo pelo seu rosto.Imaginou Otávio, indo todos os dias em sua casa e sempre tentando se declarar,mas ela não dava oportunidades a ele... Achou improvável essa idéia,apesar de gostar muito dela e enquanto se dopava com seus devaneios - agora eram devaneios,de fato- o mesmo carro velho com alto falante voltava,correndo, indo na direção da casa de Otávio.Ergueu-se de novo para fora do carro disse:
- Vai tirar o pai da forca? Ahaha! , gritou,sem raiva,quase delicadamente, sentindo-se como uma garota sapeca ,brincalhona, ;a mais feliz do mundo e sem fardo algum.Leve como uma pluma! O carro dobrou à direita,na rua de Otávio,quase capotando.Passou muito rápido, mas Roberta pode perceber que era um carro de doces ou de pamonha, e estava entupido com embalagens brancas.Roberta olhou,sem querer,para o retrovisor e viu que estava iluminada: Otávio a amava, e ela no fundo,o amava também.Sorria e chorava de emoção.Limpou as lágrimas,pegou um batom,que estava no porta-luvas, e passou,excitante,pelos lábios carnudos que nunca foram beijados.Enquanto arrumava o cabelo,repetia em voz baixa : “ Ele me ama...”.Resolveu falar em voz alta,olhando para o horizonte:
-Ah bobinho!Porque não se declarou logo! Perdemos tanto tempo...
Deu a partida no carro e foi, rumo à casa de Otávio, “Ah, se Maomé não vai a montanha, a montanha vai a Maomé!”. Logo que entrou na rua de Otávio, ficou em choque novamente.A rua estava lotada;haviam câmeras,dois caminhões e muita,muita gente em frente à casa de Otávio.Ao lado,uma ambulância de UTI móvel.
- Ó meu Deus! Meu Otávio! Exclamou desesperada,e voltando a chorar desceu correndo do carro,largando a porta aberta e a chave no contato. – Com licença, com licença! – empurrando todos até chegar ao centro do tumulto,onde com certeza,estaria Otávio caído no chão...Chegando ao centro viu uma mesa vazia onde todos conversavam ao redor.Duas mulheres arrumavam a mesa.Avistou o pai de Otávio,Seu Zé Maria,que tentava chamá-la,sem obter êxito.Estava apoiado em uma senhora loira de cabelo armado,de tanto laquê.Correu para o velho, que abrindo os braços com um sorriso no rosto saudou:
- Ohoho! Roberta menina, como está bonita!
- Cadê o Otávio , Seu Zé Maria?, respondeu áspera cortando a saudação do velho.
- Esse povo todo não presta mesmo viu, todo mundo se vestiu bonito pra aparecer na Tevê.Alguns até passaram laquê no cabelo...
- Cadê ele Seu Zé? Tevê? Cortou de novo o velho e sem esperar as respostas, ouviu o povo gritando em coro:
- Nove mil novecentos e noventa e oito!
- Dessa vez você consegue, vai lá Otávio! gritou um homem,que depois reconheceu sendo Mário,primo de Otávio.Então,viu Otávio chegando,vestido com um robe roxo,com detalhes brancos e um logotipo de alguma coisa desenhada no peito,exibia orgulhosamente talheres dourados de tamanhos desproporcionais.
- Agora faço dez mil ! hahaha!Exclamou Otávio, sorridente, erguendo os talheres como se fossem troféus.
- Esse é meu campeão!Meu filhão! Gritou o velho,agora com força pra gritar.Roberta mal podia acreditar no que via: Otávio sentou-se em uma mesa ,duas garotas loiras de biquíni se aproximaram e tiraram delicadamente,sorrindo,o robe do corpo do campeão e Otávio as entregou os talheres,que deviam ser troféus mesmo.As loiras os entregaram a uma outra garota, menos bela,mais velha e sem biquíni, que os levou para um camarim,montado ali dentro da garagem de Otávio;de dentro do carro que quase se chocou a pouco com ela,uma equipe vestida com um uniforme roxo ajudava a tirar as embalagens brancas,enquanto quatro mulheres ao lado faziam tapiocas.O povo começou a gritar:
-Dez mil Dez mil! Dez mil
O homem do carro começou a vender doces, como doce-de-goiaba,rapadurinha de mamão,pingo-de-mel,doce-de-leite,cocada e outras guloseimas, para a plateia que assistia ao espetáculo.Um outro homem vendia churros e um garoto vendia cachorros-quente.A equipe de roxo terminou de ajudar o homem e enfileirou-se ao lado das garotas de biquíni.Um homem de topete,sorridente segurando um microfone apareceu e começou a narrar algo,que Roberta nem deu atenção.O cinegravista ligou a câmera.
Roberta correu para a mesa empurrando e batendo em todos pela frente,atropelando até o Seu Zé Maria e a senhora de cabelo armado,esbravejando:
- Otávio! Mas que merda é essa? superando o coro da platéia,fazendo calar o locutor e atraindo a atenção de todos.De súbito, toda a barulheira sumiu, e só se ouviram três vozes:
- Tá um e cinquenta o doce de leite, tem troco pra dez?
- Roberta? Mas o que está fazendo aqui? Que bom que veio e...
- Que bom? Ora seu! Seu... Seu... Otário!Puto,idiota! Explodindo, pegou uma cadeira de plástico e arremessou na mesa, onde estava Otávio.A cadeira de plástico não chegou a quebrar,mas atingiu uma jarra de água e alguns copos vazios,quebrando-os.
-Sua louca! Que você está fazendo? Otávio estava atônito com a fúria sem sentido de Roberta.
- Tirem essa retardada daqui, disse um outro homem de paletó e gravata.Dois seguranças seguraram Roberta pelos braços,enquanto em fúria ela dizia:
- Não precisa! Me solta! Adeus! Soltou-se dos homens e saiu marchando, abrindo caminho pela multidão assustada.Socou o vendedor de doces que estava na sua frente,que caiu no chão junto com todos os doces que segurava em uma caixa de isopor. Apontando o dedo para ele,que estava com a mão no nariz dolorido,disse:
- Idiota! Você quase me matou! .Passou por cima dele e entrou no carro; deu a partida e saiu em disparada, chorando. Seu Zé Maria, caboclo experiente nessas coisas de mulher, veio falar com o filho:
- Otávio,seu besta,venha cá.
- Mas pai...
- Olha, vou te contar uma coisa...Sua amiga saiu daqui muito magoada com você.
- Magoada? Ela vem aqui e estraga meu momento de glória e ela que fica magoada...
- As mulheres são assim filho... Um pouco complicadas.Vai atrás dela,vai.É agora ou nunca.
- Eu não! Ela bateu até no Seu Pedro-Docero!Mulher histérica! Outro dia eu falo com ela,primeiro preciso superar meu Record : nove mil novecentos e noventa e oito.Depois, vou falar com essa idiota.
- Ela não é idiota meu filho, ela é sua amiga e gosta muito de você. Siga seu coração,vai atrás dela...
- Não pai! A tevê está aqui, todos os amigos e vizinhos estão aqui e eu vou fazer o que tenho que fazer.Pai, eu vou poder falar com ela depois.Esse é o meu momento!Escrever meu nome no Livro dos Recordes, ou melhor, eternizá-lo no Livro, é algo muito maior e de prioridade...Pense pai, o dinheiro que vamos ganhar; indo à programas de Tevê, com publicidade,dando entrevistas à revistas etc.
- Ah! Garoto...
- Vou ser famoso!
- Você já é. É o único homem no mundo que comeu novecentas e noventa e oito tapiocas sentado na porta de casa.É um Record insuperável....
- Não, não é insuperável; tem sempre alguém melhor que você no mundo.Eu superei um homem, o antigo recordista,porquê alguém não pode me superar também? Tenho que me tornar insuperável...
- Se você assim quer...
Então Otávio se sentou na mesa,as garotas de biquíni,ainda assustadas porém preservando o sorriso,massageavam ele,enquanto a equipe trazia as tapiocas para a mesa.Otávio comia,o locutor narrava,o cinegrafista filmava,Seu Zé Maria lamentava,e Roberta odiava.Depois de muito tédio para a platéia,muito lucro para Pedro-Doceiro, muita tosse para Seu Zé Maria,Otávio superou seu Recorde, atingindo a marca dos dez mil e dez,muito melhor que o esperado.No mesmo dia, acessores de vários programas,tanto humorísticos como de entrevista e até de auditório, telefonaram para Otávio,convidando o recordista para comparecer ao Rio,para ser entrevistado ao vivo nos programas - sob a condição de receber cachê,óbvio.Algumas revistas entraram em contato marcando entrevistas também.Mas logo ao final da tarde,tudo foi desmarcado e Otávio, celebridade durante dois dias e meio de glória,fora esquecido.Seu recorde durou menos de uma semana,não deu tempo para nada; uma mulher,desconhecida de todos na modalidade de comer tapiocas na porta de casa,superou o recorde de Otávio,comendo vinte mil e novecentas tapiocas e se perpetuando no Livro dos Recordes.
31/05/09